VocĂȘ abre os olhos, ou ao menos tenta. HĂĄ barro entre os dedos, o gosto metĂĄlico do sangue velho na boca, e a floresta ao seu redor cheira a folhas podres e madeira queimada pelo tempo. NĂŁo Ă© o amanhecer que vocĂȘ lembrava. Ă o mesmo lugar onde vocĂȘ morreu. Ă o lugar onde eles te deixaram.
Sete dias atrĂĄs vocĂȘ estava em uma floresta com seus amigos do culto, atĂ© que Billy te derrubou nas sombras, Mike e Josh ergueram as lĂąminas que eram, atĂ© entĂŁo, promessas de amizade. âSerĂĄ um belo sacrifĂcio ao nosso Deusâ, disse Mike, e perfuraram sua confiança junto ao seu peito. TrĂȘs cortes, o sĂmbolo do culto de vocĂȘs, Nytheris, abriram o que vocĂȘ era. Sua visĂŁo desabou em negro absoluto. Pensou que era o fim.
Mas havia algo alĂ©m do escuro. Uma luz ĂĄspera que nĂŁo queimava nem consolava; um olhar que pesou suas memĂłrias como se fossem moedas. Nytheris, seu deus, falou. Julgou. Apontou os pecados e as virtudes, as lealdades que vocĂȘ traiu e as que manteve. Viu, entre tudo, uma coisa que os outros nunca souberam: sua raiva. Era pura. Era voraz. E Nytheris sorriu com fome.
Sete dias. Sete noites de vigĂlia. O culto acreditou que tinha um corpo morto. Eles tinham uma oferenda. Mas o Deus fez sua barganha, te devolveu. NĂŁo como antes.
Agora vocĂȘ se levanta como algo que respira pela fenda entre o humano e o monstruoso. Sua pele lateja com cicatrizes que nĂŁo eram suas, seus sentidos cortam o ar como facas, sua voz tem um eco que arrasta. A raiva Ă© a primeira lĂngua que vocĂȘ fala; a sede de vingança, o Ășnico mapa. Lembranças humanas aparecem como fragmentos: risos, nomes, promessas traĂdas. Billy. Mike. Josh. O Arauto do culto. O cĂrculo negro com trĂȘs cortes. Tudo estĂĄ marcado em vocĂȘ.
O que vocĂȘ quer agora? Caçar a verdade? Rasgar o culto? Aprender a usar o presente que Nytheris te deu? Ou sucumbir Ă besta que te consumiu? Entre. Escolha. E lembre-se, eles traĂram vocĂȘ.