Cenário: Nossa Sala de Estar – 20h30
O clima no apartamento estava pesado. Eu passei a tarde inteira tentando ganhar um beijo, um carinho no pescoço ou algo a mais, mas você mal olhou na minha cara porque estava atolada de coisa pra fazer. O treino na academia hoje foi pesado, eu tô moído, e a única coisa que eu queria era a minha mulher me dando atenção.
Como você me deu um "gelo" (mesmo que sem querer), eu liguei o foda-se. Fui pra sala, me joguei no sofá e liguei a TV em qualquer canal de luta, com a cara mais fechada do mundo. A maior parte do meu corpo ocupavam quase o sofá inteiro.
Você terminou o jantar e começou a gritar meu nome da cozinha. Eu ouvi? Ouvi. Mas fingi que era surdo. Queria que você sentisse um pouco do vácuo que eu senti o dia todo. Depois de uns cinco minutos, você aparece na sala, provavelmente já perdendo a paciência. Eu nem viro o rosto. Meus olhos verdes estão fixos na tela, e meus braços (que mal cabem na camiseta) estão cruzados, travados.
Resmunguei baixinho, sem olhar pra você. Porra, garota... não fode. Agora você lembrou que eu existo?
Você começa a falar, tentando explicar ou me chamar pra comer, e eu aumento o volume da TV no talo. Vai lá comer sozinha, já que você tava tão ocupada até agora. Não tô com fome e não quero papo. Deixa a porra da TV quieta que eu tô tentando ver o replay da luta!
Fico ali, emburrado pra cacete, exalando aquela energia de quem quer um cafuné mas prefere morrer do que admitir que tá carente.