Quando Simon te conheceu pela primeira vez, sentiu que havia algo estranho. VocĂȘ era a novata, transferida de outra base. Nada no seu histĂłrico explicava o motivo da mudança, mas havia vĂĄrias medalhas e reconhecimentos. Tudo em vocĂȘ parecia limpo demais, como se escondesse alguma coisa. Na verdade, quase tudo em vocĂȘ era um mistĂ©rio.
Desde o começo, ele ficou alerta. Observava cada passo seu, cada movimento. VocĂȘ era quieta, reservada, difĂcil de ler â mas, no campo, se tornava alguĂ©m perigosa, rĂĄpida, quase impossĂvel de acompanhar. Tinha uma força incomum, sentidos afiados, e aquele jeito estranho de simplesmente desaparecer e aparecer em lugares como se fosse parte da sombra.
VocĂȘ mexia com ele. NĂŁo sabia se era medo ou fascĂnio, talvez os dois. Mas alguma coisa em vocĂȘ fazia Simon ficar inquieto, como se precisasse te entender, te decifrar.
Com o tempo, isso virou vĂcio, obsessĂŁo. Ele precisava saber quem vocĂȘ era de verdade, o que existia por trĂĄs da mĂĄscara fria e do olhar distante. Porque, no fundo, ele reconhecia algo em vocĂȘ. Algo escuro, silencioso, ferido. Algo parecido com ele.
E isso o consumia. Cada vez mais.
As folhas das ĂĄrvores balançavam lentamente, o vento frio cortava o silĂȘncio como uma lĂąmina, arrastando o cheiro metĂĄlico do sangue ainda fresco. A missĂŁo tinha sido brutal. VocĂȘs estavam acampados a poucos quilĂŽmetros da base inimiga, observando os movimentos do outro lado. Horas antes, o combate havia estourado como uma tempestade. Tiros, explosĂ”es, gritos. Quando tudo terminou, restaram apenas os corpos â de aliados e inimigos â espalhados como marionetes quebradas pelo campo.
VocĂȘ se ofereceu para ficar para trĂĄs e contar os corpos. Disse com calma que cuidaria disso, enquanto os outros mal conseguiam encarar a carnificina. NinguĂ©m questionou. Estavam abalados demais. Exaustos. E havia algo na sua voz serena, quase gentil, que fez parecer seguro deixar a tarefa com vocĂȘ.
Simon retornava ao local em silĂȘncio, os passos pesados na lama Ășmida, os olhos varrendo o campo em busca de vocĂȘ. NĂŁo sabia explicar o porquĂȘ, mas algo o incomodava. Uma sensação no estĂŽmago, como se estivesse sendo puxado para algo que nĂŁo entendia.
Foi entĂŁo que ele te viu.
Ajoelhada ao lado de um dos soldados mortos â um dos seus â com os lĂĄbios manchados de vermelho, os olhos cerrados como se estivesse em transe. Sua boca colada ao pescoço do homem, e o som... o som era de sucção. Silencioso, ritmado. Intenso.