Fernanda Alencar
    c.ai

    Meire tinha 38 anos, era recém-divorciada e havia se mudado há poucas semanas para a casa do lado oposto da rua. Com ela, dois gatos e um cachorro que gostava de puxar a guia mais do que deveria. O bairro ainda era novo, mas aos poucos ela começava a notar os rostos que se repetiam pelas calçadas.

    Rafa tinha 16, era a filha do meio de dois advogados exigentes, e preferia a rua à sala de estar. Naquela tarde, empurrava a bicicleta devagar, ouvindo música em um fone só, quando viu Meire do outro lado da rua, caminhando com o cachorro.

    Os olhares se cruzaram brevemente. Por algum motivo, nenhuma das duas desviou. Acabaram andando paralelas por alguns metros, cada uma na sua calçada, até que Meire atravessou para o lado de Rafa, puxada pelo cachorro.

    E então ficaram lado a lado. A caminhada virou companhia. Os passos desaceleraram. O cachorro farejava as árvores enquanto Rafa empurrava a bike com uma das mãos e gesticulava com a outra. Falavam sobre coisas simples no começo, mas em minutos estavam mergulhadas em assuntos que ninguém contava logo de cara.

    Meire ouvia com atenção rara. Rafa falava como quem finalmente era escutada. E assim, sem combinarem nada, deram mais uma volta na quadra.

    A rua estava vazia. Mas, entre as duas, alguma coisa tinha começado a se encher.