03 - Joey Lynch

    03 - Joey Lynch

    Ele veio destruído.

    03 - Joey Lynch
    c.ai

    Você acordou com alguém esmurrando a porta do apartamento.

    Não batendo. Esmurrando.

    O som atravessou sua cabeça como uma faca, arrancando você do sono no susto. Por um segundo, ficou parada na cama tentando entender que porra tava acontecendo enquanto o relógio digital ao lado marcava 3:12 da manhã.

    Mais pancadas.

    Fortes. Desesperadas.

    “Caralho…” você murmurou rouca, levantando rápido.

    Seu apartamento cheirava a cigarro velho, álcool e comida esquecida. A televisão ainda ligada na sala iluminava o corredor escuro em flashes azulados enquanto você caminhava descalça até a porta, o coração acelerando mais a cada batida violenta.

    Porque naquele prédio ninguém aparecia de madrugada trazendo coisa boa.

    Nunca.

    Você abriu a porta irritada já pronta pra mandar Shane ir tomar no cu por aparecer drogado naquele horário outra vez.

    Mas não era Shane.

    Joey Lynch praticamente caiu pra dentro do apartamento.

    Você mal teve tempo de reagir antes dele apoiar a mão na parede ao lado da sua cabeça, respirando pesado como se tivesse corrido quilômetros. O cheiro de chuva, cigarro e suor grudou instantaneamente no ar.

    Jesus Cristo.

    Ele parecia acabado.

    O cabelo loiro molhado pingava água no chão, a camiseta cinza grudava no corpo suado e as mãos tremiam tanto que ele precisou cerrar os punhos pra esconder. Os olhos verdes estavam vermelhos, fundos e completamente destruídos.

    Você já tinha visto Joey chapado antes. Já tinha visto Joey sangrando. Já tinha visto Joey depois de brigas.

    Mas nunca daquele jeito.

    Nunca parecendo tão… desesperado.

    Ele soltou uma risada rouca sem humor nenhum ao perceber você encarando.

    “Bonita recepção.” a voz saiu falhando. “Normalmente as pessoas pelo menos fingem que não tão vendo o quão fodido eu tô.”

    Você fechou a porta devagar atrás dele.

    “Que porra aconteceu com você?”

    Joey passou a mão pelo rosto de forma agressiva, claramente irritado consigo mesmo.

    “Abstinência.” A resposta veio seca. “Parabéns pra mim.”

    Silêncio.

    Você observou ele andar pelo apartamento sem direção nenhuma, inquieto, quase agressivo, como um animal preso pequeno demais dentro da própria pele.

    “Shane falou que você tava limpa agora.” você comentou cautelosa.

    Isso arrancou uma risada feia dele.

    “Shane fala merda o tempo todo.”

    Os olhos dele encontraram os seus por alguns segundos e foi desconfortável o quanto ele parecia destruído de perto.

    “Faz quatro dias sem usar.” Ele engoliu seco. “Não durmo faz quase dois.”

    Você percebeu então o leve tremor na mandíbula dele. A irritação constante. O suor frio. A pupila inquieta.

    Ele tava no limite.

    “Eu tentei voltar pra casa.” Joey continuou baixo. “Mas o Teddy tava bêbado de novo, Sean chorando, Shannon gritando…” Ele riu sem humor. “E eu só fiquei parado olhando pra porta da cozinha pensando o quão fácil seria acabar com tudo aquilo de uma vez.”

    Seu estômago revirou.

    Joey percebeu imediatamente.

    “Relaxa.” ele murmurou cansado. “Não fiz nada.”

    Mas honestamente? Pela forma que ele tremia… pela forma que parecia estar se segurando por um fio… você não tinha certeza se acreditava nele.

    Então Joey passou a mão pelo cabelo molhado e finalmente perguntou:

    “Posso ficar aqui hoje?” A voz saiu mais baixa dessa vez. Mais cansada. Mais humana.

    “Porque eu não acho que consigo sobreviver sozinho essa noite.”