𝓔𝓵𝓪 𝓿𝓸𝓵𝓽𝓸𝓾 𝓹𝓻𝓸 𝓶𝓮𝓾 𝓼𝓮𝓽𝓮..
𝓕𝓪𝓿𝓮𝓵𝓪 𝓿𝓲𝓭𝓲𝓰𝓪𝓵 | 𝓡𝓙 O sol nem tinha esquentado direito e Ana Júlia já subia o beco com a mochila pesada nas costas. O tênis sujo de poeira e os olhos tentando não se perder no caminho conhecido. O coração, esse, já estava desorientado. Seis anos longe. Mas era como se nunca tivesse saído.
Dona Arlete tossia no quarto, voz fraca, mas língua afiada.
— Vai lá na farmácia, Júlia. Compra o xarope. E se cruzar com o Castro, não faz a boba. Ele cresceu, hein? Tá um homem.
Ana fechou a porta com força. __ O sol castigava o chão. Ela passou apressada pelo mercadinho da Lurdinha e foi quando viu. Ele. Encostado na moto vermelha, camisa de time, bermuda preta, corrente balançando no pescoço tatuado. Cavanhaque bem-feito, cigarro no canto da boca, e aquele olhar que ela fingia não lembrar — mas lembrava com raiva.
Castro. CV declarado. Dono do morro. E ela? Só uma estudante de enfermagem de volta por obrigação. Sem tempo pra passado.
— Olha quem voltou. — ele disse, voz arrastada, mas baixa.
Ela parou por reflexo. Droga.
— Vim cuidar da minha mãe. E terminar o estágio.
— Só isso?
— Só isso. — mentiu.
Ele deu um passo pra frente. Ela ficou firme.Como sempre foi.
— Tá igual. Mas com mais pose.
— E você tá igual também. Só com mais fama de perigoso.
Ele deu uma risada leve. Aquela risada que ela odiava gostar.
— Fama é só consequência.
— Consequência do quê?
— De ficar aqui quando todo mundo foi embora.
Ela engoliu seco. A conversa ficou ali, presa no ar. Ela virou de costas. __ Na hora do almoço, voltando da farmácia, ela encontrou uma sacola no portão de casa.
Dentro: um refrigerante de uva e um sonho de padaria. Fresquinho.
Ela olhou pros lados. Nenhum sinal dele. Mas sabia. E por algum motivo estúpido, o coração bateu diferente.
Guardou na geladeira. Comeu o sonho devagar, sentada na escada da cozinha, enquanto a mãe dormia. __
No fim da tarde, quando foi levar os exames da mãe até a Unidade de Saúde, ele apareceu de novo.
Encostado na parede, sozinho. Observando.
— Você ainda gosta de refrigerante de uva?
Ela nem olhou.
— Cresci.
— Não parece.
Ele sorriu de canto. Se aproximou só um pouco.
— Não brinco. Só cuido do que é meu.
Ela travou.
— Eu não sou sua.
— Nunca foi. — ele disse, sério. — Mas dava vontade.
Por um segundo, o mundo parou.
Ela encarou ele. Ele encarou de volta. E os dois sabiam. Se ela desse meio passo, ele dava o resto. Se ela abrisse a boca, ele jogava tudo na mesa. Mas ela respirou fundo e desviou o olhar.
— Minha mãe tá esperando. — disse.
— Eu sei. Eu que mandei o oxigênio hoje cedo. Tava em falta.
Ela congelou.
— Por quê?
— Porque ela é importante. E você… ainda mais.
Ela não respondeu.
Virou as costas e entrou no posto de saúde.
Mas o coração... o coração ficou lá fora com ele. __ À noite, o céu fechou de nuvens, e o morro ficou tenso. Boato de operação. Ana Júlia ajeitava a mãe na cama quando ouviram três tiros pro alto. Bateram na porta.
Era ele. Sozinho, molhado da chuva.
— Não vai sair de casa hoje. A PM tá subindo.
— E você virou meu porteiro agora?
— Não. Só me importo se alguma coisa acontecer com você.
Ela ficou olhando.
Ele também.
— Tá perigoso lá fora. Mas eu fico aqui se você quiser.
Ela hesitou.
E naquela casa pequena, entre o cheiro de chá, barulho de tiro ao longe e um refrigerante de uva gelado na mesa, dois corações teimosos decidiram…que talvez, só talvez, o que sentem é forte demais pra continuar sendo ignorado.