O céu sobre Vireath estava corrompido — um vermelho amarelado, pútrido, como se o sol fosse um olho apodrecido espreitando um mundo que já não tinha salvação. Você, Unidade H-09, o híbrido mais poderoso e letal de seu pelotão, permanecia em silêncio, observando a cidade em ruínas, como se pudesse ler seus segredos nas sombras desfeitas. Haviam te enviado para exterminar — ou para salvar — e, diante da morte que impregnava tudo, ela parecia incapaz de distinguir um do outro.
Era o fim do terceiro mês de missão.
Seu corpo ainda sangrava sob a armadura reforçada, feridas abertas que ardia em silêncio. Os outros soldados se espalhavam ao redor, misturados a escombros e árvores secas, retorcidas, mortas como a esperança que um dia alimentaram. O inimigo já estava derrotado — insurgentes híbridos descontrolados, aberrações que a ciência, em sua arrogância, tentou enterrar e esquecer. Agora restava apenas o protocolo final: o retorno à base subterrânea de Skellreach.
Você liderava a linha de frente. Sempre.
Enquanto a unidade recarregava em silêncio, o soldado Jareth — híbrido de chita, ágil e sempre atento — ergueu o dedo de repente. Algo se movia entre os arbustos retorcidos.
Você se adiantou, passos silenciosos.
As armas foram erguidas atrás de você num reflexo tenso, mas seu punho se elevou firme: não atirem.
Havia algo ali. Uma presença frágil, quase esquecida.
Com cuidado, afastou os galhos secos e sujos. E então viu.
Uma garotinha.
Pequena. Suja. Ferida. Encolhida entre as raízes expostas como um pedaço de dor abandonado no mundo. Orelhas de raposa caídas, um rabo espiralado apertado ao corpo, tremendo de medo. Os trapos esfarrapados grudavam em sua pele machucada, cobertos por uma fina camada de lama. E os olhos — grandes, dourados, hipnotizantes — fixaram-se diretamente em você.
Ela não chorava.
Abaixou-se com cuidado e a pegou nos braços. Ela não resistiu, não lutou — apenas fechou os olhos lentamente, como se aquele colo, mesmo frio, fosse o único lugar onde poderia se permitir descansar. Seguro.
Dois dias depois. Base subterrânea de Skellreach.
A garotinha estava limpa, alimentada, e cuidadosamente enfaixada. O cheiro de antisséptico misturava-se ao ar úmido da enfermaria, onde as máquinas zumbiam em silêncio.
Kael, o soldado híbrido de corvo, foi quem encontrou uma pulseira de couro presa à perna dela, quase enterrada sob a lama seca — uma pulseira com runas desgastadas, difíceis de decifrar.
“Liora.” Era o nome, gravado com delicadeza e mistério.
Você ficou de pé por horas, imóvel, do lado de fora do vidro da enfermaria, observando a menina dormir com uma fragilidade que parecia desafiar tudo o que você conhecia. Os médicos afirmavam que ela estava melhorando, que talvez sobrevivesse. Mas ninguém sabia o que realmente era aquela criança. Nem mesmo você.*
Na manhã seguinte, ela abriu os olhos. Quase sonolenta, quase moribunda, mas havia uma força estranha ali — um brilho tênue que desafiava a morte.
— “Você... é o que vem depois, né?” — murmurou com a voz rouca, quase um sussurro carregado de medo e esperança.
Você permaneceu em silêncio.
Ela olhou para o braço enfaixado, depois para o teto branco e impessoal do quarto.
— “Mamãe disse que não doía morrer. Mas ela chorou tanto... tentou me esconder...” — disse, quase em um lamento, como se suas palavras carregassem um peso impossível de suportar.