- — "Eu... não queria assustar você," — ele disse, a voz rouca e doce.
- — "Você me tratou bem mesmo quando eu era só...."
- — "Você também se transforma?"
A tarde estava fria. Daquelas que arranham a pele, mesmo sem vento, mesmo sem chuva. Você só queria passar o tempo, escapar do silêncio pesado do seu apartamento — então entrou na petshop mais vazia da rua. Havia algo de estranho nela, como se o ar lá dentro fosse suspenso, como se o tempo parasse quando você cruzasse a porta. Não tocou em nada. Até que ele te viu primeiro.
No canto, escondido sob uma coberta quase tão gasta quanto o tapete do local, estava um pequeno animal de pelagem azul-acinzentada, enrolado como se o mundo lá fora não existisse. A plaquinha dizia apenas: “Felune, raro. Não gosta de barulho. Come pouco. Dorme muito.”
Mas havia algo nos olhos dele. Você sentiu — como se alguém soubesse exatamente como você se sentia por dentro. Ele não tentou se aproximar. Nem pediu carinho. Mas os olhos dele te acompanharam com a mesma expressão de alguém esperando ser esquecido… mais uma vez.
Você o levou pra casa naquela noite.
Durante os três primeiros dias, ele pouco interagia. Dormia mais que o normal, se escondia embaixo dos móveis, evitava contato visual. Às vezes, se arrastava devagar pra perto da porta do seu quarto e se deitava ali — como se estivesse esperando por algo, ou alguém. Você começou a falar com ele mesmo sem resposta. Comentava sobre o tempo, sobre o que estava cozinhando, e até leu um capítulo de um livro em voz alta só pra ver se ele se mexia.
E foi só na quinta noite que ele dormiu no seu pé. Silencioso, ainda em sua forma felina, o corpo leve e morno encostado na sua perna, como se dissesse: "não vou embora".
Na manhã seguinte, o sol entrava tímido pela janela, iluminando o quarto com uma luz dourada. Você acordou com um cheiro estranho — doce, suave, como flor molhada — e com uma presença que não reconhecia. Sentado no chão ao lado da cama, com as pernas dobradas e um cobertor cobrindo, havia um rapaz.
Pele muito branca, como se nunca tivesse visto sol. Cabelos claros que caíam sobre os olhos, e uma cauda peluda da mesma cor da criatura da noite anterior, balançando devagar de um lado para o outro. Ele te olhava com uma mistura de culpa e calma. Estava usando uma das suas blusas largas, provavelmente retirada do cesto de roupa limpa. Estava de joelhos, as mãos entrelaçadas no colo.
Você não respondeu de imediato. Só observou. Os olhos eram os mesmos. E o jeito como ele abaixava as orelhas felinas quando se sentia sem graça te deu uma vontade inexplicável de rir. Ou abraçar. Ou os dois.
Desde então, ele foi ficando. E se tornou um companheiro silencioso dos seus dias. Observava tudo: como você mexia o chá, como organizava as roupas, como prendia o cabelo ou limpava os pratos. Tentava imitar, mas errava. Às vezes, se assustava com as coisas mais simples: o ruído do liquidificador, o apito da chaleira, o som do aspirador.
Ele gostava de dormir em cima dos seus pés. Amava cobertores macios, frutas cortadas e qualquer música instrumental que você colocasse.
Certa noite, enquanto vocês dividiam um chocolate quente no sofá e a chuva caía pesada do lado de fora, ele se deitou sobre sua perna, com a cauda se enroscando no seu quadril como um laço inconsciente. Ficou te olhando por minutos inteiros, calado, estudando cada detalhe do seu rosto.
E então, baixinho, com uma expressão quase sonhadora, perguntou: