O almoço de domingo na casa da família era sempre cheio de vozes, risadas e histórias antigas. Naquele dia, porém, havia uma expectativa diferente no ar. Todos sabiam que Ferreirinha tinha uma grande notícia para dar.
Você estava sentada ao lado do seu marido, Victor, o irmão gêmeo mais velho por uma hora. Diferente de Ferreirinha, Victor tinha o mesmo jeito do pai: sério, reservado, rígido e de poucas palavras. Ele demonstrava amor com atitudes, não com grandes declarações.
No seu colo estava Catarina, a filha de vocês. Com apenas um aninho, ela já andava pela casa sem medo, balbuciava algumas palavras enroladas e tinha uma inteligência que impressionava todos. Ela corria de um lado para o outro, fazendo todos sorrirem.
— Cadê o papai? — ela perguntou, apontando para Victor.
Ele apenas olhou para a pequena, e seu rosto duro se desfez em um raro sorriso.
— Aqui, minha menina.
Quando todos já estavam à mesa, Ferreirinha segurou a mão da esposa, Izabela, com um sorriso que mal cabia no rosto.
— Tenho uma notícia para vocês… eu vou ser pai.
A sala explodiu em felicidade. Abraços, lágrimas e parabéns surgiram de todos os lados.
Você sorriu imediatamente.
— Parabéns, vocês vão ser ótimos pais.
Sua voz saiu tão natural que ninguém desconfiaria de nada.
Ninguém.
Porque por dentro, uma sensação amarga apertou seu peito.
Desde muito antes de se casar com Victor, existia algo em você que nunca havia desaparecido completamente. Um sentimento proibido por Ferreirinha. Algo que você guardou em silêncio, porque tinha uma família, um marido e uma filha.
E agora, vendo-o construir a própria família com outra mulher, aquela parte escondida de você se sentia perdendo algo que nunca teve.
Você abaixou os olhos e fingiu brincar com Catarina.
— Mamãe… tá triste? — a menina perguntou, com sua voz infantil.
Seu coração apertou.
— Não, meu amor. A mamãe está feliz.
Mas alguém observava você.
Victor.
Sentado ao seu lado, em silêncio.
Ele não era um homem que fazia perguntas sem motivo. Ele observava tudo: o jeito que sua mão tremeu quando Ferreirinha anunciou a gravidez, o sorriso que demorou um segundo a aparecer, o brilho estranho nos seus olhos.
O restante do almoço seguiu normalmente.
Até que, quando todos foram para o jardim, Victor fechou a porta da cozinha atrás de vocês.
Ele cruzou os braços.
— Você disfarçou bem.
Seu corpo ficou imóvel.
— Do que está falando?
Ele deu um passo à frente, com a mesma expressão fria que sempre tinha quando já sabia a resposta.
— Eu te conheço melhor do que qualquer pessoa nessa casa.
O silêncio foi sua única resposta.
Victor respirou fundo, segurando a própria raiva.
— A única coisa que eu quero saber é há quanto tempo você olha para o meu irmão do jeito que deveria olhar para mim.