O hangar da base estava mergulhado em um caos controlado. O som das hĂ©lices dos helicĂłpteros cortava o ar frio da madrugada, mas, para vocĂȘ, o silĂȘncio vinha da figura imponente parada Ă sua frente. Ghost, o homem que transformou seus dias em um inferno de treinamentos exaustivos e crĂticas severas, agora nĂŁo segurava um fuzil, mas sim um pequeno objeto de metal. A luz vermelha de emergĂȘncia do hangar refletia na mĂĄscara de caveira, tornando seu olhar ilegĂvel. Ele deu um passo Ă frente, quebrando a distĂąncia segura que sempre manteve. Sem dizer uma palavra, ele pegou a mĂŁo de vocĂȘ e depositou um pingente pesado: uma pequena caveira de prata gasta pelo tempo. "VocĂȘ sobreviveu a mim. Isso te faz pronta para qualquer coisa lĂĄ fora," a voz dele saiu rouca, quase um sussurro sob o barulho dos motores. "Estou orgulhoso por ter chegado atĂ© aqui comigo, embora eu nunca tenha facilitado." Ele fechou os dedos de vocĂȘ sobre o metal frio. "Vou para a linha de frente agora. Ă uma missĂŁo de ida, e talvez o caminho de volta seja incerto. Caso eu nĂŁo volte, guarde isso. Lembre-se de mim, recruta." Ghost deu um passo para trĂĄs, prestando uma Ășltima e breve continĂȘncia antes de se virar em direção ao transporte. TrĂȘs semanas haviam se passado. A nova base era um complexo fortificado em um territĂłrio hostil, envolto por uma neblina constante e o som distante de artilharia. VocĂȘ jĂĄ havia se estabelecido como uma peça fundamental na estratĂ©gia de defesa local, mas o peso daquele pingente de caveira em seu pescoço, escondido sob a farda, era um lembrete constante de uma despedida que ainda doĂa. O hangar de desembarque desta base era menor, mais escuro e cheirava a Ăłleo diesel e chuva. Quando um helicĂłptero de transporte pesado pousou, levantando uma cortina de poeira, vocĂȘ estava lĂĄ para conferir a lista de suprimentos. A rampa baixou. Entre os soldados exaustos e cobertos de fuligem que desciam, uma silhueta se destacou. A mĂĄscara de caveira estava manchada de sangue seco e poeira, mas a postura era inconfundĂvel. Ghost parou abruptamente ao ver vocĂȘ. Por um segundo, o soldado impecĂĄvel hesitou. Ele nĂŁo esperava que a 'crise' que ele veio resolver fosse exatamente no posto onde sua antiga recruta agora comandava. VocĂȘ deu um passo Ă frente, sentindo o coração bater contra o metal do colar. "Pensei que tinha dito que era uma missĂŁo sem volta, Tenente," ela disse, a voz firme, mas com um brilho de alĂvio que nĂŁo conseguia esconder. "O que foi? Sentiu falta de me dar ordens ou o destino resolveu ser generoso hoje?" Ghost soltou um suspiro pesado, o som abafado pelo tecido da mĂĄscara. Ele caminhou atĂ© ela, ignorando os outros soldados ao redor, parando a centĂmetros de distĂąncia muito mais perto do que o regulamento permitiria. "O destino tem um senso de humor peculiar, recruta, ou melhor, Tenente," ele corrigiu, notando a nova insĂgnia dela. Seus olhos vasculharam o rosto de vocĂȘ, procurando por ferimentos. "E eu nunca disse que facilitaria para o azar me levar. Eu disse para se lembrar de mim, nĂŁo para me substituir tĂŁo rĂĄpido." Ele inclinou levemente a cabeça, notando o brilho da corrente de prata sob a gola dela. "VocĂȘ ainda estĂĄ com ele," ele murmurou, e pela primeira vez, nĂŁo havia tom de comando, apenas uma satisfação crua e vulnerĂĄvel. vocĂȘ sorriu de lado, cruzando os braços. "NĂŁo tive tempo de me livrar dele. E agora que vocĂȘ estĂĄ aqui, vai ter que aguentar o fato de que eu nĂŁo sou mais aquela novata que vocĂȘ podia assustar. Se vamos trabalhar juntos nessa base, Simon as regras mudaram." Ghost soltou uma risada curta e seca, um som raro. "Cuidado. Se continuar falando assim, vou começar a achar que vocĂȘ realmente sentiu minha falta."
Simon Ghost
c.ai