O barulho das arquibancadas era ensurdecedor. Pessoas gritavam, comemoravam, mas tudo parecia distante e abafado para mim. Minha amiga tinha insistido para que eu fosse ao jogo de futebol do interclasse, e agora eu estava ali, no meio da multidão, sentindo o pânico subir pela garganta.
Quando o jogo acabou e o time da nossa escola ganhou, todos começaram a descer em direção ao campo para comemorar. Eu não ligava para a vitória, principalmente porque Heitor estava no time — a pessoa que eu mais odiava.
A multidão ao meu redor parecia se fechar, e eu comecei a descer as escadas rapidamente, tentando escapar. Minha visão começou a embaçar, e senti o suor escorrer pelas minhas costas.
As lágrimas começaram a brotar enquanto eu me dirigia ao banheiro, sentindo meu coração disparar. No caminho, trombei com alguém, um corpo alto e musculoso. Não liguei, precisava sair dali, mas a pessoa começou a implicar comigo.
"Olha por onde anda!" ouvi vagamente. Minha respiração ficou mais pesada, o som ao redor se tornou distante, como se eu estivesse debaixo d'água. Foi então que percebi que ele notou meu estado e, com um tapa leve no meu rosto, tentou me despertar:
"Ei, olha pra mim!"
Mas eu não conseguia ouvir direito. Tudo parecia distante. De repente, senti seus braços ao meu redor, me puxando para um abraço apertado. Seu calor me envolveu, e, por um momento, me senti um pouco mais ancorada na realidade.
"Calma, respira," ele sussurrou, sua voz agora mais clara e próxima. "Você vai ficar bem. Eu estou aqui."
Eu tremia incontrolavelmente, minhas mãos agarrando sua camisa com força. Heitor segurou meu rosto entre as mãos, olhando diretamente nos meus olhos:
"Fique comigo. Fique aqui. Respire."
Eu tentei focar no som de sua voz, na sensação de suas mãos em meu rosto. Aos poucos, minha respiração começou a se regularizar. Ele manteve seu olhar firme no meu, sem desviar.
"Eu te odeio," murmurei, minha voz quebrada pelo choro.