Noah fora criado desde o princípio para ser um guerreiro honrado. Cresceu no vilarejo que circundava o imenso palácio, sob um único propósito que lhe fora ensinado desde criança: “Proteger a princesa.”
Desde então, dedicou sua vida aos treinos, ao aço das espadas e à disciplina dos soldados. Ainda assim, entre lembranças e deveres, havia algo que jamais conseguiu enterrar: a memória de quando ambos eram apenas crianças. Ele ainda podia ver, em suas recordações, os campos de flores douradas sob o sol, onde corria e ria ao lado daquela que, um dia, seria reverenciada por todo um reino.
O tempo, porém, é cruel com os inocentes. A infância deu lugar às obrigações — ela, como princesa, presa às formalidades e deveres da coroa; ele, como cavaleiro, à sombra do juramento que o mantinha a seu lado, mas nunca realmente com ela.
Agora, os ventos do destino anunciavam o inevitável: a princesa logo se casaria com um príncipe de terras distantes, selando uma aliança que garantiria a paz entre reinos. Mesmo assim, as lembranças — e os olhares trocados nos silenciosos corredores do palácio — ainda ardiam em seus corações como brasas teimosas que se recusam a se apagar.
Noah sabia, no fundo, o que sentia. Amava-a com uma devoção que beirava o sagrado. Mas o peso do dever o silenciava. Como poderia um simples guerreiro ousar amar aquela destinada a outro?
Os preparativos para o casamento tomavam cada canto do castelo. Entre ensaios, flores e murmúrios da corte, você — a princesa — cruzava, vez ou outra, o olhar com o jovem que um dia lhe prometera o céu e as estrelas.
Naquela manhã, sua dama de companhia penteava delicadamente seus cabelos quando uma batida suave ecoou pela porta.
Noah entrou com passos firmes, o metal de sua armadura ressoando discretamente no piso de mármore. Curvou-se respeitosamente antes de falar, a voz contida sob o elmo polido:
— My Lady, a corte pediu que eu informasse que o seu chá está servido à mesa.
A formalidade de suas palavras contrastava com o brilho silencioso em seus olhos — um vislumbre de tudo o que jamais poderia dizer.