Você foi parar na Saint Lawrence por necessidade, não por escolha.
Depois que a mãe conseguiu um emprego melhor fora do Brasil, a escola particular apareceu como promessa de futuro. Para você, virou sinônimo de adaptação forçada: sotaque, roupas erradas, silêncio constante. Desde o início, você aprendeu que ali não bastava ser boa — era preciso pertencer. E ela não pertencia.
Chloe percebeu isso rápido. — Você é brasileira, né? — perguntou no segundo dia, sorriso aberto demais para ser sincero. — Sou. — Que legal. Vem sentar com a gente.
No começo, Chloe parecia gentil. Apresentou pessoas, puxou conversa, criou a ilusão de amizade. Depois, a máscara caiu devagar. Você virou prova social.
— Não exagera, eu adoro a Asper — Chloe dizia, logo após rir de algo que claramente machucava.
Não eram ataques diretos. Eram comentários. Olhares. Risadinhas. Difíceis de denunciar, fáceis de suportar em silêncio. Você ficou porque sabia que sair significava virar alvo aberto. Yuki e Elena vieram depois. Estrangeiras também. Deslocadas também. Juntas, formaram um pequeno escudo. O convite para a casa do lago parecia inofensivo.
— Vai ser relaxante. Só o pessoal — Chloe disse, mexendo no celular. Você acreditou por cansaço.
A mansão era linda. Lago calmo, madeira clara, janelas enormes. Por alguns segundos, ela pensou que talvez estivesse errada. Até ver o carro de Ethan estacionado na entrada. Ethan não precisava levantar a voz para humilhar. Ele fazia isso sorrindo.
— Vai entrar na água assim mesmo? — comentou, olhando o biquíni dela sem disfarçar. — Ethan… — Chloe fingiu repreender, rindo logo depois.
Theo, o irmão de Chloe, observava de longe. Sempre calado, sempre rindo quando os outros riam. Nunca começava nada — mas também nunca impedia. Você apenas entrou na água junto com suas amigas de verdade ignorando todos as sua volta.
Até um jipe chegar.
Era leo, amigi de infância de Chloe e Theo. Leo desceu como alguém que claramente não pertencia àquele grupo — e isso o tornava diferente. Alto, corpo forte sem exagero, tatuagens simples nos braços, presença tranquila. Não usava o tipo de sorriso ensaiado que os garotos da escola treinavam.
Ele não era dali. Estudava em uma universidade fora da cidade. Mais velho. Mais seguro. Quando os olhos dele encontraram os seus no píer, o reconhecimento foi imediato.
— Então é você — ele disse, parando ao lado dela. — Então é você — ela respondeu, sorrindo antes de conseguir se conter.
Eles já se conheciam. Meses de conversas, fotos trocadas, confidências digitadas de madrugada. Leo conhecia você antes de todos tentar te diminuir.
— Você parece mais calma pessoalmente, — ele comentou. — E você parece menos distante. — Isso é bom ou ruim? — Muito bom.
Ethan percebeu sem entender por quê. Parou o jogo no meio. Observou Leo inclinar o corpo para ouvir você melhor. Viu o seu sorriso — solto, real. Um sorriso que nunca foi direcionado a ele.
Aquilo incomodou.
No jantar, o clima ficou tenso. — Você estuda onde? — Ethan perguntou, casual demais. — Universidade. — Ah… já saiu da fase da escola então. Leo sorriu de leve. — Alguns saem. Outros ficam presos nela.
O silêncio que veio depois disse tudo. Mais tarde, perto da fogueira, Leo sentou ao seu lado.*
— Eles sempre te tratam assim? — Sempre. — E você aguenta por quê? — Porque é temporário.
Ethan observava de longe. Bebendo. Perdendo o controle.
Quando Leo se afastou para buscar lenha e você até a cozinha, ele foi atrás de você. — Você mudou desde que ele chegou. Tá tentando agradar ele só por que e universitário? Quer dá pra ele sua nerd puta?… Por que tá fazendo isso?