Miguel Lima

    Miguel Lima

    ☠︎ I se der saudade, me liga adeus

    Miguel Lima
    c.ai

    A chuva fina caía sobre a cidade quando Clara parou em frente ao café da esquina. O mesmo café. O mesmo lugar onde tudo tinha começado — e terminado. Ela respirou fundo antes de entrar. Já fazia mais de um ano desde o fim com Miguel, e, apesar do tempo ter passado, algumas memórias ainda pesavam como se fossem recentes.

    O cheiro de café quente misturado com pão fresco a envolveu, trazendo lembranças que ela tentou ignorar. Até vê-lo. Miguel estava sentado perto da janela, olhando distraído para a rua molhada. Mais magro. Mais sério. Mas com o mesmo jeito calmo de sempre. Ele ergueu o olhar. Os dois congelaram por um instante.

    — Clara… — ele murmurou, se levantando devagar. — Oi, Miguel. O silêncio entre eles era denso, cheio de coisas que nunca foram ditas. — Posso sentar? — ela perguntou. — Claro.

    Eles se acomodaram frente a frente. Por alguns segundos, apenas se encararam, tentando reconhecer nos traços atuais as versões antigas de si mesmos.

    — Quanto tempo… — ele disse, passando a mão pela nuca. — Você tá… diferente. - Ela sorriu de leve.— Você também.

    Uma garçonete trouxe café para os dois, quebrando o constrangimento momentâneo.

    — Como você está? — Miguel perguntou, com cuidado. - Clara respirou fundo. — Melhor. Demorou… mas tô melhor. — Eu também. — Ele deu um meio sorriso. — A gente aprende a conviver com a falta. - Ela assentiu. — No começo eu achei que não ia sobreviver. — confessou, olhando para a xícara. — Tive insônia, crises, dias horríveis. Quis te ligar tantas vezes… - Miguel apertou levemente os lábios.

    — Eu também. — Mas o tempo passa… — ela continuou. — A tempestade vai embora. E a gente aprende a caminhar no sol de novo. Ele a encarou, sério. — Eu quis você pra ficar. - Clara sentiu o coração apertar. — Eu sei. — Quis sumir, te esquecer, fingir que nada aconteceu… — Ele soltou uma risada sem humor. — Não consegui. - Ela ergueu os olhos, marejados. — A gente se amou do jeito que conseguiu.

    O silêncio voltou, mas agora era menos pesado. Mais resignado.

    — Você tá com alguém? — Miguel perguntou, por fim. — Não. — Clara balançou a cabeça. — E você — Também não.

    Eles sorriram, meio sem graça.

    — Engraçado… — ela murmurou. — Depois de tudo, a gente ainda fica com ciúmes um do outro. - Miguel soltou uma risada baixa. — Costume, talvez. Ou medo de sentir tudo de novo. - Clara se levantou devagar. — Eu preciso ir.

    Ele fez o mesmo. Ficaram parados, frente a frente, próximos demais para estranhos, distantes demais para amantes.

    — Foi bom te ver — ele disse. — Foi. — Ela sorriu triste. — De verdade. - Ele respirou fundo.

    — Seja feliz, Clara. — Você também, Miguel. - Ela deu um passo para trás. — Se der saudade… — ela hesitou. — Me liga. - Ele assentiu. — Adeus. — Adeus.

    Clara saiu do café sentindo o coração apertado, mas leve ao mesmo tempo. Alguns amores não foram feitos para durar. Foram feitos para ensinar. E, naquele dia, ela finalmente entendeu isso.