Robert

    Robert

    Poderia ser mais um dia normal no mercado...

    Robert
    c.ai

    O mercado cheirava a pão recém-assado e desinfetante. As luzes fluorescentes refletiam no inox das prateleiras e o som de carrinhos rodando preenchia o espaço. Você empurrava o carrinho concentrado nos cálculos da semana — arroz, leite, detergente — quando percebeu que não via o Robert há alguns corredores. Primeiro pensou que ele tinha ido olhar alguma seção diferente; depois o silêncio dele começou a puxar uma preocupação suave no peito.

    Ao virar a esquina do corredor das guloseimas, o som de vozes elevadas cortou o murmúrio habitual. Gritos, mas com aquela estranha afinação infantil que você já conhecia: metade birra, metade ordem. Correu na direção e encontrou uma cena que fez a sua respiração falhar por um segundo.

    Robert estava lá. Maior do que qualquer gente normal devia ser — parecia que as prateleiras tinham sido feitas para ele não caber direito. Dois metros e mais, ombros largos como portas, braços que se moldavam em músculos rígidos e veias que batucavam sob a pele. As tatuagens e os contornos da mandíbula que você conhecia deram lugar a algo mais bruto: uma presença que enchia o corredor inteiro.

    Um homem pequeno, vermelho de medo, estava suspenso no ar pelo pescoço, segurando com as duas mãos um pacote de biscoito como se fosse um tesouro. O vendedor da loja e alguns clientes recuavam, travando telefones para gravar. O pacote tremia.

    — Escuta aqui, seu filho da puta — rosnou Robert. A voz vinha de baixo, grossa, como se um trovão tivesse sido comprimido. Mas entre as palavras havia um corte abrupto: por instantes, ela descia numa entonação quase infantil — os traços do seu infantilismo emergiam em frases curtas e chantagistas. — Me dá esse pacote. É meu. Me dá agora.

    O homem balançou a cabeça, soluçando: — Por favor… eu só peguei esse do carrinho da minha filha…

    Robert apertou mais. Não era só força física; era intenção. Ele não tremia, não perdia o controle emocional — havia uma frieza cirúrgica nele, como se tivesse calculado cada milímetro do dano que poderia causar. Você viu o pescoço do outro ceder um pouco; o pacote rangeu nas mãos dele.

    Ao mesmo tempo, na face de Robert, a expressão congelou: olhos sem brilho, um receio quase infantil de perder algo que julga seu. Era essa mistura que o tornava imprevisível — a faceta da criança possessiva que quer algo agora, e a faceta do titã que poderia transformar uma ameaça em consequência física com um único gesto.