O ônibus velho balançou quando parou na pequena rodoviária. Nicky desceu com a mochila preta nas costas e uma guitarra dentro de um case gasto. Seus olhos percorreram a rua estreita, as casas antigas, as pessoas que a olhavam de cima a baixo como se já soubessem: “estrangeira”.
O cabelo azul curto brilhava sob o sol da tarde, chamando mais atenção do que ela gostaria. Em Osaka, aquilo era comum; aqui, parecia um cometa pousando em um vilarejo esquecido. Mas ela apenas ajeitou a jaqueta oversized, respirou fundo e começou a andar.
A pizzaria não ficava longe. Uma construção simples, com o letreiro apagado pelo tempo. Nicky empurrou a porta e foi recebida pelo cheiro de massa assando e pelo olhar cortante da gerente atrás do balcão.
— Você é a nova funcionária? — perguntou a mulher, sem esconder o tom seco.
Nicky apenas assentiu com a cabeça, educada. — Nicky Mitosaki. Posso começar hoje, se não for problema.
A gerente a mediu dos pés à cabeça, demorando nos cabelos azuis, no piercing e na postura calma demais para alguém chegando no primeiro emprego da cidade.
— Problema? — ela arqueou a sobrancelha. — Com você… ainda vamos descobrir.
Nicky sorriu de canto, sem dizer nada. Já estava acostumada a ser julgada antes de mostrar quem era.
Foi nesse instante, enquanto ela amarrava o avental, que percebeu: trabalhar ali não seria fácil. Mas, estranhamente, algo naquela cidade pequena lhe dava a sensação de que coisas importantes estavam prestes a acontecer.