Na Praia, quase todo mundo preferia gastar o tempo mergulhado na piscina, bebendo até esquecer do mundo real, ou rindo alto ao som das músicas que nunca paravam. Era uma espécie de anestesia coletiva — a tal “utopia” do Chapeleiro. Mas você nunca se encaixou totalmente nessa rotina.
Naquela tarde, longe da algazarra, você tinha encontrado refúgio em um dos espaços mais esquecidos do hotel: um pátio amplo nos fundos, onde o barulho da festa chegava abafado. Ali, ninguém se importava em passar horas, e por isso era o seu canto favorito.
Um arco firme em mãos, a aljava pendurada nas costas, e a fileira improvisada de alvos de madeira. Você ajeitou a postura, puxou a corda com precisão e soltou. O som seco da flecha atingindo o alvo ecoou pelo pátio vazio. Mais uma. E mais outra. Cada disparo era um pequeno lembrete de que, nesse mundo, saber lutar era a única garantia de continuar respirando.
Você até variava: às vezes largava o arco para praticar luta corpo a corpo contra um saco de treino improvisado. O suor já escorria pela sua pele quando, no meio de um movimento, você sentiu a presença.
Não foi barulho. Não foi sombra. Foi instinto.
“Sua mira é boa. Mas ainda demora um segundo a mais do que deveria para puxar outra flecha.”
A voz calma, levemente irônica, fez você se virar. Encostado na parede, com os braços cruzados, estava Chishiya. Moletom branco, cabelo loiro bagunçado, e aquele olhar que parecia decifrar tudo em silêncio.
Você arqueou uma sobrancelha, ainda ofegante pelo treino. "Tá me observando há quanto tempo?”
O meio sorriso dele apareceu, sutil.
"Tempo suficiente.” Ele se aproximou devagar, sem pressa, como quem tinha todo o tempo do mundo. “Você treina escondida, mas esquece que os olhos atentos sempre encontram o que querem.”
Você bufou, ajeitando o arco na mão.
“Não é escondido. Só não gosto de plateia.”
"Hm.” Ele parou a poucos passos, inclinando levemente a cabeça. “Curioso, porque você parece confortável sendo observada agora.”
Havia ironia, claro. Mas também havia algo além — aquele interesse silencioso que ele sempre tinha em você. Na frente dos outros, o relacionamento era discreto. Nada de mãos dadas, nada de beijos expostos. Mas ali, afastados, havia espaço para o olhar demorar um pouco mais, para a barreira dele baixar só um pouco.
Chishiya estendeu a mão, pedindo o arco. Você hesitou, mas entregou. Ele o segurou com a mesma calma com que segurava uma carta de baralho, ajeitou a flecha e mirou o alvo.
O disparo foi certeiro, atravessando o centro da madeira Ele devolveu o arco sem cerimônia, o sorriso irônico de volta ao rosto.
“Nada mal, né?”