Rafa corria pelo Parque Ibirapuera — um dos lugares mais conhecidos e movimentados de São Paulo — quando desacelerou para recuperar o fôlego. O som dos tênis batendo contra o chão, misturado ao canto distante dos passarinhos e ao burburinho da cidade ao fundo, criava uma trilha sonora familiar das manhãs de sábado.
Foi então que, num relance, algo chamou sua atenção.
Bruna Santana. Reconhecível à primeira vista, mesmo de longe. Irmã do Luan, sim — mas mais do que isso, uma presença marcante por si só. Ela estava ali, caminhando com leveza por uma das trilhas mais tranquilas do parque. Ao lado dela, uma menininha de uns quatro anos — de vestido amarelo e cabelos cacheados — brincava com passos pequenos e saltitantes. Um cachorro de porte médio, um Golden Retriever filhote, os acompanhava com a língua de fora e o rabo abanando.
A cena era quase cinematográfica: uma manhã comum, um momento de paz. Rafa parou, encostando-se a uma árvore, apenas para observar. Havia algo hipnotizante na naturalidade da cena — o jeito como Bruna sorria para a menina, como puxava a guia do cachorro com cuidado, como tentava se manter discreta, longe de olhares curiosos.
Mas o momento foi interrompido.
Um homem se aproximou do trio. Mal vestido, o andar cambaleante. Não parecia alguém que estava ali para fazer exercícios ou passear. Rafa notou que Bruna imediatamente parou. Os ombros ficaram tensos. Ela olhou ao redor, avaliando o entorno. Com um movimento rápido e instintivo, abaixou-se, pegou a menina no colo e puxou o cachorro para mais perto.
Rafa não ouviu nenhuma palavra. Estava distante demais. Mas a linguagem corporal dizia tudo: desconforto, alerta. A expressão de Bruna mudara. Seus olhos analisavam o homem como quem mede distância, tempo e possibilidade de reação.
Por um instante, Rafa hesitou. Aquilo não era problema seu. Mas a tensão no ar era palpável, e a maneira como Bruna recuava um passo lentamente, mantendo a criança contra o peito, não parecia exagero.