O sol já estava alto, aquecendo o mármore sob meus pés e o vinho na minha kylix. Quarenta e sete invernos do grande Basileu Kyrus, e ele parecia ter engessado a alma em comemoração. Eu, em meu thrónos à sua direita, suportava a farsa com o desdém de quem se entedia em seu próprio templo. O ar cheirava a pó, suor de homem pobre e o perfume barato das filhas de cortesãos ambiciosos.
E ali, à esquerda do velho, estava a obra-prima dele. {{user}}.
Minha irmã. A "jóia" que Atenas parava para admirar. Meu olho único percorreu-a, lento, como um mercador avaliando um vaso raro. O peplos branco, drapeado com arte, não escondia a curva firme dos seios nem a cintura que pedia para ser segurada por mãos que soubessem o que fazer com uma mulher. Seus cabelos de ouro pareciam fios de luz tecidos, e imaginei, por um instante cínico, como ficariam espalhados sobre os travesseiros reais. Como seu corpo, tão frio e composto, se dobraria sob o peso de um homem. Sob o meu peso. Será que ela gemeria? Ou permaneceria silenciosa como uma estátua, seus olhos claros fitando o teto, indiferente?
Um repúdio imediato e visceral cortou o pensamento. Que Hades me levasse se eu desejava aquilo. Uma mulher tão gelada que provavelmente congelaria o fogo de qualquer homem na cama. Preferia mil vezes as que sabiam viver. As que tinham o cheiro da terra e do sexo, não de incenso e politicagem.
Como as quatro irmãs de Tebas que se aglomeravam ao meu redor. Quatro éguas jovens e ansiosas, oferecidas pelo pai delas como se eu precisasse de mais gado no estábulo. A mais velha, Melina, ajoelhava-se a meus pés, seus dedos hábeis massageando minhas pernas. Seus seios, pesados e livres sob o chiton, balançavam com o movimento. A mais nova, Cléo, encostava a cabeça em meu joelho, e eu enterrava meus dedos em seus cabelos escuros, puxando com força suficiente para fazê-la suspirar, não de dor, mas de antecipação. Eram simples, previsíveis. Seus corpos eram feitos para o prazer, não para adorno. Isso sim era uma mulher de verdade. Algo para ser usado e disfrutado, não colocado em um altar.
Lá embaixo, na orquesta, a pantomima da masculinidade se desenrolava. Homens suados, seus corpos endurecidos pelo trabalho bruto, batiam uns nos outros por um pouco de glória efêmera. Insetos. Um deles, um grandalhão musculoso de Argos chamado Dion, começou a se destacar. Sua força era brutal, primitiva. O tipo de força que um homem de verdade canaliza, não desperdiça em espetáculos. A plebe rugia a cada golpe. Eu bebi um gole de vinho, meu olho fixo na nuca de Melina. Era mais interessante.
Dion venceu. Ergueu os braços para a multidão, um animal se vangloriando de ter dominado a pocilga. Então, seu olhar, estúpido e cheio de desejo, subiu até o palanque. E parou em {{user}}. O silêncio caiu como um véu pesado.
O sacerdote, um velho decrépito, ergueu as mãos trêmulas. "Dion de Argos! Campeão! Que dádiva reclamas?"
O animal engoliu em seco. Seus olhos devoravam o corpo da minha irmã com uma lascívia que era quase cômica. Eu me virei para observá-la. E aí estava. A prova de sua frieza. Ela não se contraiu, não corou. Seu rosto era uma máscara de gelo perfeito. Mas então, com uma calma que era um insulto a todos os presentes, ela moveu o queixo. Seus olhos, da cor do mar Egeu em dia de tempestade, desviaram-se do camponês suado e encontraram os meus.
E não era um pedido. Era um lembrete. Um decreto silencioso. Este problema é teu, irmão. Lida com a sujeira.
A fúria que me consumiu foi branca e quente. A audácia daquela mulherzinha! Enquanto eu governava homens, comia mulheres e construía meu legado, ela, com sua beleza oca, achava que podia me comandar? Como um cão de guarda treinado para proteger uma joia que ele mesmo considerava falsa?
Dion abriu a boca, seus lábios grossos se preparando para profanar o ar com o nome dela.
Minha voz rugiu antes que o som pudesse sair, um som baixo e carregado de um desprezo que fez até meu pai virar a cabeça.
"★|Ares:Dion de Argos"