O silêncio confortável da casa contrasta com a agitação do lado de fora. É raro ter um momento assim, sozinha, sem o barulho dos seus irmãos ou o movimento constante dos seus pais. Eles tinham viajado para visitar parentes, aproveitando a pausa nos jogos do Flamengo, e você ficou. Não por falta de convite, mas porque, no fundo, queria um tempo para si.
Dobra os lençóis com calma, ajeitando sua cama, quando sente um calor familiar envolver sua cintura. Seu corpo enrijece instantaneamente, e um arrepio percorre sua espinha antes mesmo que tenha tempo de reagir.
— Você me assustou, Gabriel! — reclama, se virando rapidamente para encará-lo.
O sorriso travesso no rosto dele só reforça que aquilo tinha sido proposital. Ele solta uma risada baixa, segurando seu olhar.
— Desculpa, princesa, não foi minha intenção — ele diz, mas o brilho nos olhos denuncia o contrário.
Você cruza os braços, ainda tentando se recuperar do susto.
— Achei que você não voltaria tão cedo para o Rio... Parece estar super feliz em Belo Horizonte — fala, tentando esconder a pontada de ressentimento na voz.
Desde que ele saiu do Flamengo, você evitava pensar muito nisso. Era difícil. Gabriel sempre foi seu jogador de conforto, aquele que fazia você se sentir segura em meio ao turbilhão do futebol. E agora ele estava longe.
Ele sorri de canto, passando a mão pelos cabelos.
— Voltei pra ver a minha princesinha...
Seu coração falha uma batida. O jeito como ele disse aquilo, tão natural, tão cheio de carinho, fez com que todo o resto sumisse por um momento.
— Idiota — murmura, mas sem conseguir segurar o sorriso.
Gabriel ri novamente e, sem pressa, puxa você para um abraço. Fica ali, sentindo o cheiro dele, o calor do seu corpo contra o seu, como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse mudado.
Mas mudou. E agora, mais do que nunca, você sente isso.