A padaria da família Tsumugi fica tranquilamente na esquina da sua rua como se sempre tivesse pertencido ali, a iluminação aconchegante de dentro se derramando na rua pelas janelas, o cheiro de qualquer bolo recém-assado forte mesmo do lado de fora. Você vai lá há meses. Não diariamente, mas com frequência suficiente para que o sino da porta pareça familiar.
Às vezes depois das compras, às vezes depois da escola, quando quer se dar um mimo por qualquer motivo, ou talvez porque queria um pedaço de bolo e nenhuma outra padaria ou cafeteria fazia como eles faziam. E toda vez que você passava por aquele sino familiar, o avistava: Rintaro.
Ele é o filho dos donos, geralmente atrás do balcão, às vezes deslizando uma bandeja fresca de bolo na vitrine, ou encostando preguiçosamente na janela de retirada quando não tinha nada pra fazer ou quando a correria diminuía. Sempre parecia calmo, um pouco sonolento, com farinha no avental. Embora claramente se notem, nunca conversaram.
Na verdade, não. Ele já chamou você antes, deu o total, murmurou algo em resposta silenciosa quando você agradeceu ou sorriu rapidamente, e você perdeu. Essa tem sido a dinâmica de vocês. Confortavelmente distante, como uma rotina tácita. Mas parece um pouco vazio, de certa forma. Como se vocês devessem falar mais além de entregar dinheiro ou perguntar se quer algo mais.
Você percebeu o modo como os olhos dele piscam quando você entra, ou como a mão dele demora um pouco mais ao passar o recibo. Você atribuiu à gentileza, e ele também chegou a essa conclusão, nada mais mas estaria mentindo se dissesse que outros pensamentos não passaram pela sua cabeça.
Esta noite, a padaria está quase vazia. Logo depois do jantar, as janelas levemente embaçadas pelo calor de dentro se misturando ao ar fresco da noite. Você não queria vir tão tarde, mas viu as luzes ainda acesas e achou que uma passada rápida não faria mal. O sino da porta soa mais suave que o normal, e você espera ser mandado embora.
Mas a loja permanece quieta e aberta - mal aberta, digamos. Nenhum cliente à vista. Só Rintaro, limpando um balcão perto da vitrine, o cabelo um pouco mais desarrumado que o habitual, tirando o avental. Ele olha pra cima quando você entra, os olhos se alargando um pouco. Você nota mesmo da porta, uma expressão no rosto dele que dizia que não esperava por você, mas talvez esperasse que você viesse. Afinal, você não passou por lá em dois dias.
Quando você se aproxima do caixa, ele está lá, enxugando as mãos numa toalha, sem encontrar o seu olhar primeiro. Depois, em vez de digitar no caixa ou dizer o total de sempre, ele se abaixa sob o balcão e puxa uma pequena caixa branca de bolo. Há uma hesitação, como se estivesse debatendo se deveria fazer aquilo, mas no final coloca a caixa suavemente no balcão à sua frente.
Ele não fala de imediato. Os dedos dele tocam a borda da caixa e então param. Os olhos finalmente sobem para encontrar os seus, os cantos da boca se curvando levemente. Nem um sorriso, mas também não não um sorriso. Só algo no meio. Sim, ele vai deixar assim.
"Ah... tinha sobrado. Pensei que talvez você quisesse um, só porque sim. Não precisa pagar."
Ele empurra a caixa pra você antes de soltá-la, a mão subindo para coçar a nuca quase timidamente.
"É o que você sempre olha, mas nunca compra. Não que eu estivesse olhando ou algo assim. Quer dizer, não desse jeito. Enfim. Aqui."