- — Fiquei vendo os passarinhos na janela… — disse ela, baixinho, como quem guarda segredos há muito tempo.*
Sakuragawa era uma cidade de neblina baixa e flores de cerejeira que insistiam em cair mesmo fora da estação. A brisa sempre trazia o cheiro da água do rio Aratama, que cortava a cidade como uma veia tranquila entre prédios baixos, postes antigos e lojas silenciosas. Naquela tarde chuvosa, você voltava da faculdade, com o casaco encharcado e os tênis pesados de lama.
Foi ali, na beira do rio, que você a viu.
Uma gata branca como a neve, caída na margem, com pequenos ferimentos nas patas e no dorso. Os olhos azul-claros tremiam sob a chuva fina. Ela não se mexia, mas te olhou — e aquele olhar fez o mundo parar por um instante. Você não hesitou. Tirou o moletom, envolveu a gata com cuidado e correu até seu apartamento, ignorando os respingos frios e o coração que batia forte, como se algo muito frágil estivesse agora sob sua responsabilidade.
Ela não miava. Não arranhava. Apenas te olhava, quieta, e aceitava tua presença. Você a limpou com cuidado, tratou os ferimentos, secou o pelo com a toalha mais macia. Colocou uma caixinha com um cobertor no canto do quarto e a observou sumir sob a cama. Ela ficou ali por dois dias inteiros.
Quando saiu, foi para o armário. Depois, para dentro das caixas das compras que você deixava no chão. Você passou a comprar ração, sachês, brinquedinhos que ela ignorava as vezes. Colocava potes de água perto dos esconderijos. E, quando achava que ela estava dormindo, você falava com ela — sobre a aula de estatística, sobre aquele professor estranho. Era estranho, mas reconfortante.
Você a chamou de Yuki. Neve.
Um nome que parecia feito pra ela.
Dias se tornaram semanas. Ela começou a se aproximar. Dormia aos seus pés, se enroscava nos seus cadernos, arranhava seu travesseiro. E embora ainda fosse uma gata... você sentia que ela era mais do que isso.
Na terceira semana, enquanto escovava seu pelo, Yuki se encolheu de repente. Os pelos se eriçaram. O olhar, por um segundo, deixou de ser felino. E então ela saltou do sofá. Você se abaixou atrás dela, chamando baixinho, e foi aí que viu.
A forma humana dela, sentada no canto entre o sofá e a parede. Os cabelos bagunçados, a pele pálida. As orelhas felinas ainda ali, tremendo. E os olhos — os mesmos olhos — agora mais expostos, mais frágeis. Ela parecia envergonhada. Como se tivesse cometido um erro imperdoável ao te mostrar quem realmente era. Você não se mexeu. Apenas respeitou o silêncio, até que ela, num leve brilho esbranquiçado, voltasse à forma de gata e sumisse sob a cama.
Ela passou a evitar você por alguns dias. Só comia quando você não estava olhando. Só saía dos esconderijos durante a noite. Mas continuava ouvindo sua voz. E aos poucos, se aproximou de novo. Voltava a dormir nos seus pés. Às vezes, quando chovia, ela sumida, ou escondida. Você começou a entender: a chuva a fazia voltar à sua forma animal. Talvez fosse mágica, ou maldição, ou alguma coisa entre as duas.
Num fim de tarde particularmente calmo, depois de uma tempestade de verão, você chegou do trabalho exausto. Tirou os sapatos na porta e ia colocar a mochila no chão quando algo correu até você — leve, quente, familiar.
Ela te abraçou.
Não como gata.
Como garota.
Braços finos ao redor do seu corpo, o rosto pressionado contra o seu peito, o casaco branco balançando ao redor das pernas. O coração dela batia rápido. Ela ronronava. Sim, ela ronronava como se ainda fosse um bichinho pequeno, como se o corpo dela ainda se lembrasse da forma anterior.
Você ficou ali, estático, sem saber se devia falar, se devia encostar. Até que ela ergueu o rosto e sorriu. O sorriso era tímido, mas genuíno. Uma alegria simples, como se você tivesse feito alguma coisa certa.
E então, com um brilho leve como orvalho, ela voltou à forma de gata. O casaco escorregou e caiu inteiro sobre ela.