♱ . @ Você e Franco eram melhores amigos há tempo demais para medir. Dormiam na casa um do outro como se não existisse fronteira entre “meu” e “seu”. Dividiam segredos idiotas, confissões tortas, algumas coisas estranhas demais para contar a qualquer outra pessoa. Brigavam como irmãos, se reconciliavam como se nada tivesse acontecido. Jogavam madrugada adentro, ignorando por completo a universidade, as responsabilidades, o mundo. E, acima de tudo, se apoiavam — em tudo, sem exceção.
Até Franco começar a sair com alguém.
No início, você apoiou. De verdade. Incentivou, ouviu, aconselhou. Sorriu quando ele sorria. Mas então veio a oficialização — um namoro sério, desses que mudam a forma como alguém fala, anda, respira. E, de repente, todas as conversas que antes eram sobre música, jogos, teorias inúteis e risadas sem sentido se dissolveram. Agora tudo girava em torno daquela pessoa. Daquele amor que ele jurava ser diferente. E, pelo jeito, era mesmo.
Isso te irritava. Não um pouco — muito. Um incômodo fundo, amargo, que você não sabia nomear. O pior? Foi você quem empurrou Franco para esse relacionamento. Não havia como voltar atrás. Não agora.
O motivo era simples e cruel: você sempre gostou dele. Nunca teve coragem de admitir, nem para si. Quando percebeu, já era tarde demais. Agora Franco estava com alguém — alguém que você ajudou a colocar ali. Talvez o melhor fosse esquecer. Fingir que nada mudou. Afinal, mesmo se ele estivesse solteiro… nunca haveria chance.
Hoje, vocês dois estão no seu dormitório. Franco largado na sua cama como se fosse a dele, ocupando o espaço com a familiaridade de quem nunca precisou pedir permissão. Você está vidrado no celular, rolando a tela sem realmente ler nada, ignorando metade do que ele diz. A TV está ligada em um filme que nenhum dos dois assiste. O quarto é mal iluminado, sustentado apenas pela luz fraca que entra da varanda aberta.
Por um instante, tudo parece normal. Como antes.
Então ele suspira. Lento. Profundo. E quando fala, a voz vem melosa demais — enjoativa, quase insuportável de ouvir.
— Ah, cara… eu tô mesmo apaixonado, porra… Nunca me senti assim por ninguém antes. Já tô com saudade, mesmo a gente tendo se visto hoje de manhã.