Henrique era um soldado respeitado, conhecido por sua coragem em campo de batalha. Mas em uma missão, o destino lhe roubou aquilo que ele mais prezava: a visão. Um estilhaço de granada atingiu seu rosto e, por meses, ele viveu em trevas.
Foi nesse período que Clara entrou em sua vida. Não por amor, mas por um contrato. A família dela aceitou que ela fosse sua esposa e cuidadora, em um casamento arranjado. Clara não escondia sua impaciência; tratava Henrique como uma criança, controlando seus passos, sua alimentação, até o modo de vestir. Ela cumpria sua promessa de cuidar dele, mas sem delicadeza.
— “Sente direito, Henrique, você não é mais um soldado, agora precisa de alguém que pense por você.” Essas palavras ecoavam na mente dele. Cada gesto dela, mesmo que fosse para ajudá-lo, lhe parecia uma humilhação.
Os meses se arrastaram, até que, contra todas as previsões, uma cirurgia arriscada devolveu a visão a Henrique. Quando abriu os olhos e voltou a enxergar o mundo, ele acreditou que finalmente seria livre.
Mas a liberdade trouxe rancor.
Agora, cada vez que olhava para Clara, enxergava não a mulher que esteve ao seu lado, mas a figura dura que o tratava como um fardo.
— “Eu não preciso mais de você, Clara. Nem dos seus cuidados, nem da sua promessa.” — disse ele, frio, recusando até a comida que ela preparava.