Ferreirinha
    c.ai

    Você acordava todos os dias antes dele.

    O silêncio da casa era a única coisa que ainda parecia honesta.

    Casada com Aldemir Ferreira há anos, você aprendeu a reconhecer pequenas mudanças — o jeito como ele evitava seu olhar, o tempo exagerado no celular, as mensagens que ele apagava rápido demais. Não foi uma descoberta repentina. Foi um acúmulo de detalhes… até se tornar impossível não perceber.

    Ele tinha outra.

    E você sabia.

    Mas nunca disse.

    Naquela manhã, como tantas outras, você preparava o café enquanto ouvia o chuveiro ligado. Quando ele apareceu, já vestido para o treino, o cheiro de perfume diferente ainda parecia novo demais para ser ignorado.

    — “Vou chegar tarde hoje” — ele disse, pegando as chaves sem nem olhar direito pra você.

    Você apenas assentiu, com um sorriso leve.

    — “Eu sei.”

    Ele parou por um segundo. Talvez esperando alguma reação. Talvez até desejando. Mas você nunca dava.

    Esse era o seu papel naquela história: a mulher que “não sabia”.

    Durante o dia, você ocupava a mente. Arrumava a casa, resolvia coisas pendentes, saía às vezes… mas sempre voltava para aquele mesmo pensamento que você evitava encarar de frente. Não era ingenuidade. Era escolha.

    Porque encarar significaria quebrar tudo.

    À noite, ele chegou mais tarde do que o normal. Camisa levemente amassada, olhar cansado… mas não era cansaço de treino.

    Você estava no sofá, fingindo assistir algo.

    — “Ainda acordada?” — ele perguntou.