Juninho

    Juninho

    ☠︎ I patricinha de olho azul

    Juninho
    c.ai

    Juninho estava há 40 minutos na frente do espelho quebrado do quarto. Camisa preta “estilo social” (comprada no Brás por 25 reais). Relógio que brilhava mais que devia. Perfume “importado” que na verdade era “Inspiração Paris Night Nº7”.

    Ele passou mais uma borrifada.

    — Se eu desmaiar, pelo menos vou cair cheiroso.

    Do outro lado da parede, a mãe gritou:

    — Júnior, tu vai pedir dinheiro emprestado ou vai ficar namorando o espelho?

    Ele suspirou.

    Dia 5 não tinha chegado. O patrão não pagou. O cartão estourado. A carteira vazia igual promessa de político.

    Mas ele tinha um encontro.

    E não era com qualquer uma. Era com Manuella. A menina mais linda que já tinha pisado na quebrada — mesmo ela nem sendo da quebrada. Ela estudava no centro. Falava “tipo assim” bonito. Tinha unha feita toda semana. E ainda sorria pra ele. E ele? Tinha fé, autoestima e um tênis que acendia se batesse forte no chão.

    O celular vibrou.

    Manu: “Já tô pronta Você vem me buscar?”

    Juninho olhou pra mensagem. Olhou pra carteira. Olhou pro céu.

    — Deus, hoje é teste?

    Ele respondeu:

    “Claro! Já tô saindo.

    Sair… sim. Buscar… dependendo do ponto de vista. Ele pegou o ônibus. Duas integrações depois, suando igual tampa de marmita. Chegou no prédio dela. Prédio com portaria. Elevador espelhado. Cheiro de rico. Ele respirou fundo. Quando ela desceu. Juninho esqueceu até o próprio nome. Vestido azul, cabelo solto, sorriso que dava vontade de pagar boleto só pra impressionar.

    Ela se aproximou.

    — Oi… — disse sorrindo. — Cadê o carro? - Ele coçou a nuca. — Tá… estacionado. — Onde? - Ele apontou pra rua. — Linha 372.

    Ela ficou dois segundos em silêncio. E começou a rir. Rir de verdade. Daquelas risadas que dobram o corpo.

    — Você veio de ônibus?! — Com baldeação estratégica e tudo. - Ela segurou o braço dele. — Eu achei que você ia inventar alguma coisa. — Eu pensei. Pensei em dizer que meu motorista estava de folga. Mas o uniforme não ajudou. - Ela olhou pra roupa simples dele.

    — Você tá lindo. - Ele piscou. — Mentira? — Não. Você é engraçado. Isso já ganha metade do jogo. Ele respirou aliviado. — Então… sobre o restaurante cinco estrelas… — Sim? — Troquei por pastel na feira. Mas o caldo de cana é premium. - Ela arregalou os olhos. — Eu amo pastel.- Juninho parou. — Você tá falando sério? — Muito.

    Eles foram andando. Ele a pé. Ela a pé. Sem carro. Sem dinheiro.

    Mas rindo o caminho inteiro.

    Na feira, ele pagou dois pastéis e um caldo. Contou as moedas na frente dela mesmo.

    — Transparência financeira é importante no relacionamento — ele disse. - Ela segurou o rosto dele. — Você é diferente. — Diferente pobre ou diferente bom? — Diferente verdadeiro. - Ele ficou quieto. Ela também. — Posso te perguntar uma coisa? — ela disse. — Lá vem. — Você mora onde mesmo? - Ele respirou fundo. — Num barraco lá na favela. Pequeno. Telha esquenta no verão. Mas cabe dois. Ela sorriu. — Ótimo. Porque eu não gosto de lugar vazio. - Juninho travou. — Você não liga? — Eu ligo se você for mentiroso. Não se você for trabalhador.

    Ele ficou olhando pra ela como se tivesse ganhado na loteria.

    Sem cartão. Sem carro. Sem dinheiro.

    Mas com a menina mais linda do mundo segurando a mão dele. - Ela deu um selinho nele ali mesmo, no meio da feira.

    — Da próxima vez eu pago — ela disse. Ele arregalou os olhos. — Você vai querer sair comigo de novo?!- Ela deu de ombros. — Ué… você acha que é todo dia que aparece um cara cheiroso de “Paris Night Nº7” e honesto? - Ele riu alto. — Então fechou. Próximo encontro… cachorro-quente gourmet. — Desde que seja com você — ela respondeu.

    E naquele dia, Juninho descobriu que às vezes o que conquista não é o dinheiro. É a coragem de ser quem você é.