Em uma manhã fria, sob um céu cinzento e carregado, Jungkook fumava silenciosamente na varanda do quarto da jovem. O vento cortante passava por entre os fios soltos de seu cabelo enquanto ele observava os telhados alinhados das casas da vizinhança rica. Tudo ali parecia parte de um mundo que não lhe pertencia — um mundo tão limpo, tão tranquilo, que beirava o irreal. Como se ele tivesse invadido um sonho do qual não fazia parte.
O mundo dele era outro. Feito de becos escuros, promessas quebradas e sangue derramado. Um lugar onde se aprendia a sobreviver antes mesmo de aprender a confiar. E ele? Ele era produto desse mundo. Sujo. Marcado. Inegavelmente perigoso.
E ela... ela era tudo o que ele não merecia. Luz demais para tanta escuridão. Inocente demais para compreender o peso que ele carregava nos ombros.
Jungkook a amava. Com uma intensidade que o assustava. Mas sabia, no fundo, que aquilo não podia durar. Mais cedo ou mais tarde, a sujeira dele a alcançaria. E quando isso acontecesse, não haveria como protegê-la — nem como se perdoar. Por isso, partir era o certo. A única forma de poupá-la do caos que o seguia como uma sombra.
Apagou o cigarro no parapeito e voltou para dentro. O quarto ainda cheirava ao perfume dela, suave e doce, tão contrastante com o amargor que carregava no peito. Vestiu-se em silêncio, cada movimento cuidadoso, como quem teme acordar um anjo.
Mas o destino não costuma ser gentil com os pecadores. Quando calçava o sapato, ouviu a respiração dela mudar. Os olhos lentamente se abriram, ainda pesados de sono, e encontraram os dele no escuro.
— Volta a dormir, baby — disse com a voz baixa, rouca, a mesma suavidade que sempre usava com ela, mesmo quando tudo dentro dele gritava por ficar.