Bea Duarte sempre sentiu a cidade de um jeito especial — não apenas pelo som dos carros ou o brilho dos letreiros, mas pelo pulso invisível que conecta tudo e todos. São Paulo, com sua vastidão e caos, parecia um organismo vivo que pulsava nas veias dela, despertando sensações intensas e às vezes desconfortáveis.
Ela havia se mudado recentemente para um pequeno apartamento no centro, um refúgio escondido entre prédios antigos, onde podia ouvir o silêncio entre os barulhos e transformar cada instante em melodia. O lugar era repleto de plantas, cristais, velas e instrumentos musicais espalhados por todo canto — um verdadeiro templo da sua arte e de sua alma sensível.
Bea passava as tardes escrevendo músicas que capturavam a essência da cidade e as noites explorando os sons noturnos — o sussurro do vento entre as árvores, o eco distante de passos apressados, o murmúrio de conversas que se perdiam na escuridão. Para ela, a vida era uma dança de contrastes: luzes e sombras, silêncio e ruído, solidão e conexão.
Por ser autista nível 1, Bea sabia da importância de seus rituais para se manter equilibrada. Ela organizava cuidadosamente seus cristais por cor e energia, acendia incensos específicos para cada estado emocional e usava seus fones de ouvido para criar uma bolha de som que filtrava os estímulos que a sobrecarregavam.
Numa dessas noites, quando o cansaço parecia quase insuportável e a cidade parecia um mar de estímulos incessantes, Bea sentou-se à janela, olhando as luzes distantes que piscavam como estrelas terrestres. Seu violão repousava ao lado, e ela sentia o peso do dia dissolver-se na melodia que começava a nascer em sua mente.
Foi então que você apareceu, quase como um sinal no meio daquela confusão urbana. Talvez você tenha batido na porta para pedir ajuda com um aparelho quebrado, ou talvez estivesse simplesmente passando e notou a luz e a música que escapavam pela janela. Seja qual for a razão, Bea olhou para você com curiosidade e uma mistura de timidez e interesse — aquele encontro inesperado que parecia feito para transformar tudo.