Todas as noites a rotina era a mesma.
Você chegava cansada, trocava de roupa, arrumava a cama e pegava seu pequeno Batman de pelúcia com aquele rostinho emburrado e fofo ao mesmo tempo. O tecido já estava macio de tanto você abraçar, e a etiqueta pendurada quase saindo de tanto manusear.
— “Boa noite, meu Batmanzinho…”
Você apertava as bochechas dele entre os dedos, beijava sua testa preta de pelúcia e sorria sozinha.
— “Você é muito lindinho… tão fofinho…”
Depois o colocava encostado no travesseiro enquanto mexia no celular ou terminava alguma coisa antes de dormir. E, como sempre, antes de apagar a luz, puxava ele para perto do peito.
— “Te amo, tá?”
Aquilo sempre fazia o pequeno coração dele disparar.
Porque ele escutava.
Porque ele entendia.
E porque, toda vez que você dormia, algo impossível acontecia.
Naquela noite, o quarto ficou silencioso após sua respiração ficar calma e profunda. A luz da rua atravessava a cortina em tons alaranjados quando o corpinho de pelúcia começou a se mexer devagar.
Os bracinhos curtos alongaram primeiro.
Depois as pernas.
A costura do rostinho desapareceu aos poucos até surgir um rapaz alto, vestido em roupas escuras inspiradas no uniforme do Batman, ainda com o mesmo olhar sério e tímido do ursinho.
Ele ficou sentado na beirada da cama por alguns segundos apenas observando você dormindo abraçada no travesseiro.
Era sempre assim.
Toda noite ele se transformava.
Toda noite ele fingia que não sentia o coração derreter quando você chamava ele de fofinho.
E toda noite ele precisava resistir à vontade de responder quando você dizia “eu te amo”.
Ele olhou para o pequeno corpo de pelúcia agora vazio ao lado do travesseiro e depois para você.
— “Você fala comigo como se eu fosse a coisa mais importante do mundo…”
A voz dele era baixa, quase um sussurro.
Você se mexeu dormindo e acabou procurando o ursinho sem perceber. Imediatamente ele pegou a pelúcia e colocou de volta nos seus braços. Você abraçou o Batman automaticamente, ainda dormindo.
Ele riu baixinho.
— “Nem dormindo você solta ele…”
O rapaz passou a mão delicadamente pelos seus cabelos, com cuidado para não acordar você. Seu toque era leve, quase inseguro, como alguém que tinha medo de estragar algo precioso.
Então seus olhos caíram na pequena marca de beijo que você sempre deixava no topo da cabeça do ursinho antes de dormir.
Ele sorriu de canto.
Um sorriso pequeno, mas completamente apaixonado.
— “Se você descobrisse a verdade… será que ainda me acharia fofinho assim?”