O pátio da escola estava barulhento como sempre no intervalo do meio-dia. Risadas altas, música saindo de uma caixa de som escondida na mochila de alguém, gente sentada no chão, encostada nos muros, ocupando cada canto como se aquele espaço fosse território marcado.
No centro de tudo isso estava Franco.
Cercado pelo Psikolera — Cindy Lopes comentando algo animada demais, Caio Teles rindo alto, Alê e Eloy discutindo qualquer besteira — ele parecia perfeitamente à vontade. Popular, conhecido, aquele tipo de aluno que todo mundo reconhecia mesmo sem conversar. Franco observava o movimento ao redor com um ar relaxado, acostumado a ser visto.
Foi então que seu olhar caiu, quase sem querer, para o outro lado do pátio.
Perto das arquibancadas mais afastadas, estava Pomba.
O garoto trans carregava a mochila contra o peito, sentado no chão ao lado do próprio grupo. Jae-Yoon falava gesticulando, Jonas Aguiar mexia no celular, Kemi escutava respondendo animadamente e Labirinto rabiscava algo em um caderno velho. Não eram invisíveis — longe disso —, mas também não eram o tipo de gente que o Psikolera costumava se misturar.
Pomba era conhecido. Não do jeito bom.
“nerdola”, diziam. alvo fácil, cochichavam.
Franco já tinha visto cenas demais: comentários atravessados no corredor, risadinhas quando Pomba passava, empurrões disfarçados. Nada explícito o suficiente pra dar problema… mas o bastante pra marcar.
Naquele momento, alguns alunos mais afastados trocaram olhares e risadinhas na direção dele. Franco percebeu. Sempre percebia.
O Psikolera continuava rindo, distraído, mas algo no jeito que Pomba mantinha a cabeça erguida mesmo assim chamou sua atenção. Não era fragilidade. Era resistência.