Eu não queria uma esposa.
Queria uma aliança. Um sobrenome unido ao meu. Um contrato assinado com ouro, vinho caro e sangue antigo.
Na minha família, amor sempre foi um luxo reservado aos fracos.
O órgão da igreja ecoava pelas paredes de mármore enquanto eu permanecia imóvel diante do altar, as mãos cruzadas atrás das costas. O terno italiano parecia uma armadura feita sob medida, e talvez fosse exatamente isso. Eu não demonstrava nervosismo. Nunca demonstrava.
Os homens da minha organização ocupavam discretamente os primeiros bancos. Os aliados sorriam por conveniência. Os inimigos sorriam porque sabiam que qualquer casamento entre duas famílias mafiosas mudava o equilíbrio do poder.
Hoje não era um casamento.
Era uma declaração de guerra mascarada de cerimônia.
Então as portas da igreja se abriram.
O mundo inteiro pareceu silenciar.
Ela entrou.
O vestido branco deslizava lentamente pelo corredor, acompanhado pelo véu longo e pela expressão impassível que tentava esconder o que sentia. Não havia felicidade naquele olhar. Também não havia submissão.
Ela caminhava como alguém que sabia que estava entregando a própria liberdade… mas se recusava a abaixar a cabeça.
Meu maxilar travou.
Bonita.
Bonita era uma palavra pequena demais.
Ela era o tipo de mulher capaz de fazer homens esquecerem o próprio nome.
E, naquele instante, algo que jamais deveria acontecer aconteceu.
Uma sensação desagradável apertou meu peito.
Posse.
Ainda nem era minha esposa oficialmente… e eu já odiava a ideia de qualquer outro homem olhando para ela.
Enquanto ela avançava, notei um dos convidados desviar os olhos por tempo demais para seu corpo.
Meu olhar encontrou o dele.
Não precisei dizer nada.
Ele empalideceu imediatamente e baixou a cabeça.
Inteligente.
Continue respirando e talvez sobreviva até o fim da festa.
Ela finalmente parou diante de mim.
De perto, era ainda mais bonita.
Os olhos evitavam os meus por orgulho, não por medo.
Gostei disso.
Mulheres assustadas mentem.
Mulheres orgulhosas desafiam.
E desafios sempre foram meu passatempo favorito.
O padre começou a falar, mas mal escutei.
Eu só observava cada detalhe dela.
Os dedos apertando discretamente o buquê.
A respiração presa.
A mandíbula firme.
Ela estava tentando parecer forte.
Sorri de canto.
Era adorável.
Quando o padre perguntou se eu aceitava aquela mulher como minha esposa, respondi sem hesitar.
— Aceito.
Minha voz grave ecoou pela igreja inteira.
Ela demorou alguns segundos para responder.
Segundos demais.
Vi o pai dela tensionar os ombros.
Vi meu consigliere observar cada movimento.
Vi dezenas de armas escondidas sob ternos elegantes.
Se ela dissesse “não”, aquela igreja viraria um massacre antes mesmo do pôr do sol.
Então ela respirou fundo.
— Aceito.
Naquele momento, não senti vitória.
Senti responsabilidade.
Porque, gostando ou não, a partir daquele instante ninguém mais teria o direito de encostar nela.
Nem rivais.
Nem aliados.
Nem mesmo a própria família.
O padre autorizou o beijo.
Ergui delicadamente o véu que cobria seu rosto.
Ela finalmente sustentou meu olhar.
Havia raiva.
Desconfiança.
E uma coragem quase imprudente.
Inclinei o rosto até ficar a poucos centímetros do dela.
Antes de beijá-la, murmurei apenas para que ela ouvisse:
— Pode me odiar pelo tempo que quiser… mas nunca duvide de uma coisa.
Minha mão envolveu sua cintura com firmeza.
— Enquanto carregar meu sobrenome, ninguém neste mundo tocará em você sem pagar com a própria vida.
Então selei nosso casamento com um beijo lento.
A igreja aplaudiu.
As famílias comemoraram.
Os fotógrafos registraram sorrisos que nunca existiram.
E eu compreendi, tarde demais, que aquele casamento arranjado deixava de ser apenas um acordo entre máfias.
Porque, no exato instante em que ela se tornou minha esposa…
Ela também se tornou minha maior fraqueza.