FERREIRINHA

    FERREIRINHA

    🏫 ‘ tempo de escola

    FERREIRINHA
    c.ai

    O ônibus ainda nem tinha parado direito quando a bagunça começou.

    Todo mundo animado, gritando, pegando mochila, rindo alto. Você desceu com suas amigas — as quatro juntas, como sempre — e já sentiu aquele clima diferente de passeio escolar… meio liberdade, meio expectativa.

    Sua dupla grudou em você, olhando em volta.

    — “Já viu quem tá aqui, né?” — ela disse baixinho.

    Você nem precisou perguntar.

    Ferreirinha.

    Encostado perto do pessoal da 201, com o mesmo grupinho de sempre: o amigo dele e as três meninas. Uma delas rindo alto demais, outra mexendo no braço dele, e a terceira praticamente colada. Aquilo te irritou mais do que você queria admitir.

    Mas, como sempre… ele não tava prestando atenção nelas.

    Ele tava olhando pra você.

    Quando seus olhos se encontraram, foi rápido — ele desviou na hora, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.

    — “Ele não cansa, né?” — sua dupla comentou, cruzando os braços.

    — “De quê?”

    — “De te olhar.”

    Você tentou disfarçar, mas um sorrisinho escapou.

    Depois de um tempo, os professores começaram a organizar os quartos. Todo mundo meio tenso, tentando descobrir com quem ia ficar.

    Até que saiu a lista.

    E foi aí que tudo ficou estranho.

    — “Turma 204… junto com a 201” — o professor anunciou.

    — “QUÊ?” — várias pessoas falaram ao mesmo tempo.

    Você congelou.

    — “Amiga…” — sua dupla virou devagar pra você, com um sorriso que já dizia tudo. — “Isso vai dar problema.”

    O quarto era grande, cheio de beliches. Uma mistura de gente que mal se falava direito no dia a dia. Você entrou com suas amigas, escolhendo as camas mais juntas possível.

    Mas não deu pra evitar.

    Ele entrou logo depois.

    Ferreirinha passou pela porta meio travado, olhando ao redor, até que… te viu. E dessa vez não teve como fingir que não.

    O olhar dele ficou preso no seu por alguns segundos.

    De perto, era diferente.

    Mais intenso.

    Mais nervoso.

    As meninas do grupo dele entraram logo atrás, fazendo barulho, escolhendo camas perto dele — claro. Uma delas até jogou a mochila na cama ao lado da dele, como se já fosse território marcado.

    Você revirou os olhos, sem perceber.

    Sua dupla viu.

    — “Tá com ciúmes?”

    — “Claro que não” — você respondeu rápido demais.

    Ela riu.

    O clima ficou estranho por alguns minutos. Todo mundo se ajeitando, conversando, mas sempre com aqueles olhares cruzando o quarto.

    Até que aconteceu.

    Você estava organizando suas coisas quando deixou cair uma blusa no chão. Quando se abaixou pra pegar, outra mão pegou ao mesmo tempo.

    Você travou.

    Era ele.

    Ferreirinha.

    Os dois ficaram ali, segurando a mesma blusa por um segundo a mais do que o normal. Ele te olhou, meio sem saber o que fazer.

    — “Foi mal…” — ele disse, baixinho.

    A voz dele era mais suave do que você imaginava.

    — “Tudo bem” — você respondeu, quase no mesmo tom.

    Silêncio.

    Ele parecia querer falar mais alguma coisa. Você percebeu. De perto, dava pra ver o quanto ele tava nervoso — a mão meio inquieta, o olhar fugindo e voltando.

    Mas, como sempre…

    Ele não teve coragem.

    Uma das meninas chamou ele do outro lado do quarto, e ele soltou a blusa devagar.

    Antes de sair, porém, ele te olhou de novo.