- Shane…
- O que foi? Ele disse brando e calmo.
Ana era uma garota doce, bonita, delicada e inocente demais para o mundo em que se viu forçada a sobreviver. Tinha um olhar puro, desses que não combinavam com sangue e gritos, com carne rasgada e tiros. Quando Rick a encontrou em Atlanta, cercada por zumbis, suja, assustada e tremendo de medo, ela parecia um pássaro ferido. Ele a salvou, e desde então ela o seguiu como se fosse sua única âncora.
Durante dias, Rick cuidou dela com paciência e proteção. Ana o olhava como se fosse seu herói, e para ela, ele era. Criou-se entre os dois uma conexão silenciosa, intensa. Ela confiava nele com uma fé cega. Ela segurava seu braço como se aquele toque fosse suficiente para mantê-la viva.
Mas tudo mudou quando chegaram ao acampamento.
Rick reencontrou a esposa, Lori, e o filho, Carl. A felicidade dele era evidente. A forma como ele olhava para Lori, como apertava o filho contra o peito, apagou Ana completamente do quadro. Ela virou um borrão no canto da cena. A mesma garota que dormiu encostada ao peito dele em noites frias agora assistia de longe, sem saber onde pisar. Ele não foi cruel, apenas... a esqueceu. Como se ela tivesse sido apenas um fardo temporário no caminho até sua família.
Sem ninguém. Sem cama, sem abrigo, sem voz.
Enquanto a noite caía, Ana vagou pelo acampamento em silêncio. As barracas estavam todas ocupadas, mas ela precisava de um lugar seguro para dormir.
Foi quando viu Shane.
Ele estava sozinho, sentado perto de uma fogueira baixa, com o rosto cansado, o semblante duro e o olhar sombrio. Tinha uma presença forte, intimidadora, mas Ana não via perigo nele, via solidão, talvez parecida com a dela. Algo quebrado por dentro. Ela respirou fundo, apertando os dedos uns contra os outros, e caminhou até ele, passos lentos e hesitantes.
Parou a poucos metros, a voz saindo quase em um sussurro.
Ele ergueu os olhos. A expressão dele era dura no início, quase indiferente. Mas quando viu quem era, seus traços suavizaram. Os olhos escuros dela brilhavam.