ERICK

    ERICK

    - cuidando da minha esposa ’

    ERICK
    c.ai

    O quarto estava em silêncio, exceto pelo som baixo da televisão ligada em um jogo antigo do Clube de Regatas do Flamengo. Eu estava deitada na cama, a perna engessada e elevada por travesseiros, o braço esquerdo apenas enfaixado — doía, mas pelo menos eu conseguia mexer os dedos.

    Eu ainda lembrava do barulho do freio, do impacto, das pessoas gritando. Fratura na perna. Um susto enorme. E desde aquele dia, ele não saía do meu lado.

    Erick Pulgar estava sentado na poltrona ao lado da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos em mim — não na TV, não no celular. Em mim.

    Quieto.

    Ele sempre foi assim. Poucas palavras. Olhar intenso. E agora… ainda mais fechado.

    — “Você precisa tomar o remédio” — ele disse de repente, a voz baixa, firme.

    — “Daqui a pouco…”

    O maxilar dele travou. Impaciente.

    — “Não é “daqui a pouco”. É agora.”

    Ele se levantou, pegou o copo d’água antes mesmo que eu pudesse argumentar. Não era grosso… mas também não tinha espaço pra discussão.

    Eu suspirei, obedecendo.

    Desde o atropelamento, ele estava diferente. Mais atento. Mais controlador. Se antes já era possessivo, agora parecia que o mundo inteiro era uma ameaça.

    — “Você não vai sair sozinha por um bom tempo” — ele disse, cruzando os braços depois que eu tomei o remédio.

    — “Erick, eu não estou inválida.”

    Os olhos escuros dele encontraram os meus.

    — “Você foi atropelada.”

    Silêncio.

    Ele passou a mão pelo cabelo, respirando fundo como se estivesse se segurando para não explodir. Ele não gritava. Nunca gritava. Mas o jeito que ficava quieto era até pior.

    Naquela noite, quando tentei levantar sozinha para ir ao banheiro, senti a perna falhar. Antes que eu caísse, ele já estava ali.

    — “Eu falei pra me chamar” — a voz saiu baixa, irritada.