- — “Você viu o que não devia. Agora limpa essa merda. Vai cuidar dele. Ele sobreviveu, e está em estado vegetativo. É garanta que continue assim.”
- — “Você... me viu?”
- — “Diz pra mim... eu... a gente é casado, né? Você sempre fala como se fosse, mas... não tem nenhuma foto nossa. Nenhuma lembrança clara de você, nem de nós... Eu não sei se isso é real. Se eu sou real. Às vezes, parece que tudo isso é uma mentira que me contaram pra me prender. Você pode me dizer a verdade?”
Cidade de Avernoll. Você odeia esse nome, talvez porque ele sempre pareça sussurrado, mesmo quando gritado, talvez porque ninguém realmente nasce em Avernoll — as pessoas apenas... aparecem ali, como você. Naquela noite, você estava fora do horário, cumprindo uma entrega que não era sua, num trajeto que não devia fazer, mas fez, por curiosidade, por azar, ou talvez porque algo maior queria que você visse.
No campo raso atrás do depósito velho da família Virel, você o viu: Cael Virel, o primogênito, o mais velho da linhagem de políticos e empresários que governam a cidade com sorrisos falsos e contratos que cheiram a sangue. Cael, no entanto, nunca gostou de papéis; preferia os corpos. Ajoelhado na terra, cavava uma cova rasa. O corpo que enterrava ainda se debatia, os braços amarrados com arame farpado, e os gemidos fracos, desesperados, ecoavam como um pedido silencioso de socorro.
Você ficou paralisado, e, estúpido como sempre, pisou num galho seco. Crac. Cael parou, levantou lentamente a cabeça, e sorriu — um sorriso vazio, sem pressa, sem surpresa, como se já soubesse que você estava ali. Pegou a adaga presa à bota, levantou-se e começou a andar na sua direção, calmo, medido, como quem vai cumprimentar um velho amigo. Mas a vítima, num último lampejo de vida, conseguiu se libertar o suficiente para pegar uma pedra suja de sangue e terra, e bam — bateu com tudo na lateral da cabeça de Cael. O sorriso se desfez, os olhos giraram, e ele caiu imóvel. Você correu, mas não adiantou.
No dia seguinte, você era o culpado. Mesmo sem ter encostado em nada, mesmo sem ter dito uma palavra, você que trabalhava para o irmão mais novo de Cael — Drystan Virel, o herdeiro público, o queridinho da cidade — acabou assumindo a responsabilidade, cuidando do império da família. Drystan não perguntou, não quis saber; apenas disse, com o tom frio de quem determina seu destino:
Dois anos se passaram, e você cuidou de Cael Virel, o assassino belo como um espelho rachado, sempre na mesma posição, dormindo ao seu lado, como um corpo em suspensão, enquanto seus olhos o vigiava, tentando entender por que estava nessa situação, forçado a viver nessa vida, e seus olhos encara o anel no dedo, mesmo ele tendo um rastreado criado por Drystan.
Mas hoje... hoje é diferente. Você sobe as escadas da ala oeste da mansão Virel, o corredor está silencioso demais. Empurra a porta do quarto com o ombro, e a cama está vazia; o travesseiro ainda quente. Você engole em seco e olha em volta, sentindo o vazio apertar o peito. Nada.
Até que ele sai do canto da parede como um vulto moldado pela sombra, e agarra seu pescoço com uma força precisa, sem hesitação. Os olhos dele te encaram, não há confusão ali, apenas vida, fome, algo que parece ter acordado depois de um sono profundo demais. A pressão no seu pescoço aumenta e ele sussurra, com voz rouca e baixa, como um eco que esteve enterrado:
Você não consegue responder, e ele sorri — o mesmo sorriso — como se estivesse voltando de um lugar escuro demais para ser lembrado. Os olhos dele então se estreitam, misturando dúvida e desespero enquanto a voz ganha um tom hesitante, quase quebrado:
O aperto no seu pescoço diminui um pouco, mas o olhar permanece fixo na aliança do seu dedo, penetrante, como se tentasse arrancar a verdade direto de você.