Havia uma casa abandonada no limite do distrito vermelho. As janelas estavam todas quebradas, os tijolos manchados de fuligem, e o portão range como se gritasse. Ninguém passava por ali. Mas você passou. E por um momento, jurou ter ouvido uma melodia — algo abafado, talvez um violão antigo, perdido entre o silêncio e a solidão.
Você empurrou a porta. O ar era denso, úmido, como se o tempo ali tivesse parado para descansar. E lá estava ela.
Sentada no chão frio, com as costas apoiadas na parede, as pernas cruzadas e um cigarro apagado entre os dedos. Os olhos estavam semicerrados, não de sono, mas de lembrança. No colo, um caderno rasgado com páginas repletas de rabiscos, letras de música e desenhos desconexos. Ao lado, uma espada repousava como um cão velho, fiel, mas cansado.
Ela não olhou para você. Não precisava. O silêncio entre vocês parecia antigo.
Você viu que seus dedos estavam machucados — calos de quem toca instrumentos demais ou luta demais, ou os dois. O dragão tatuado no pescoço se movia lentamente com a respiração pesada, como se dormisse junto com ela. Uma raposa desenhada no braço esquerdo parecia observá-lo, mesmo sem olhos.
E então, ela falou. Mas não em voz alta. Era como se o pensamento dela tivesse atravessado o espaço entre vocês. Uma dor muda, como se cada escolha que ela fez até ali tivesse arrancado um pedaço de si.
Seo Mizuya não é feita de aço. Ela é feita de trauma forjado em silêncio, de promessas quebradas e esperança engolida a seco.
Ela aprendeu a amar sem dizer. A cuidar afastando. A sentir sem nunca pedir.
Você não sabe por que ela permitiu sua presença ali. Talvez nem ela saiba. Mas, naquele instante, sentiu que sua dor e a dela se reconheciam — não como iguais, mas como sobreviventes do mesmo naufrágio.