12:56 da tarde
O sol castigava São Paulo como só ele sabia fazer durante o verão. O asfalto fervia, o ar parecia mais pesado, e até as sombras das árvores pareciam inúteis naquele calor absurdo. Você vinha caminhando da sua quebrada, mochila nas costas, fone de ouvido abafando o barulho dos carros, dos ônibus lotados e das conversas aleatórias que ecoavam pelas ruas
Era o primeiro ano do ensino médio. Novo ciclo, novas pessoas, uma escola particular — que, pra muita gente, parecia sinônimo de privilégio, mas, pra você, era só o resultado do esforço da sua mãe, que fazia hora extra toda semana pra garantir que você tivesse uma chance melhor. A escola ficava na divisa entre bairros, onde quem vinha da periferia como você se misturava com quem nunca precisou pensar duas vezes antes de gastar dinheiro
Você entrou na sala, olhando em volta, percebendo que muita gente já tinha se ajeitado. Alguns rostos conhecidos do fundamental, outros completamente novos. Seu grupinho de amigas ainda não tinha chegado — ou, pelo menos, ninguém estava ali naquele momento
Seus olhos percorreram as fileiras e... claro. Todas as mesas ocupadas. Quer dizer, quase todas. Só tinha uma vaga, bem atrás de uma menina que não tinha como passar despercebida
Ela tinha um estilo que desafiava qualquer pessoa. Cabelos loiros escuros, longos, mas raspados nas laterais, deixando bem visível um desenho quase geométrico que parecia recém-feito na navalha. Ela tinha vários piercings — um na sobrancelha, outro no septo, mais um no canto da boca e uns três na orelha esquerda, que brilhavam cada vez que ela se mexia. Uma estética meio punk, meio sapatão padrão — a famosa "sapadrão", como o pessoal da quebrada falava —, mas sem boné, claro, porque a escola era chata e não permitia acessórios assim
Ela estava ali, sozinha, apoiada na mesa, mexendo no celular, quando percebeu você chegando e puxando a cadeira vazia atrás dela. Antes mesmo de você conseguir ajeitar sua mochila no chão, ela virou pra trás
Te olhou por um segundo, meio que analisando, como se quisesse sacar quem você era, se era de boa ou se era mais uma dessas pessoas enjoadas que ela provavelmente detestava
Depois sorriu de canto, com aquele piercing no lábio brilhando, e mandou, com uma voz rouca, meio arrastada, que combinava perfeitamente com o jeito dela:
— "Oi... tudo bem?" — Ela segurou o olhar por uns segundos, como quem realmente queria te ouvir, e não só jogar papo fora pra passar o tempo
O barulho da sala parecia até diminuir por um instante. O ventilador girava preguiçoso no teto, espalhando mais vento quente do que refresco de verdade. A aula nem tinha começado, e aquele dia... você já sentia que não ia ser só mais um dia qualquer