Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
O vento sibilava entre os pilares da mansão de contenção como se a casa estivesse gritando por dentro, e talvez estivesse. A neve batia nas janelas blindadas, estalando como unhas no vidro. Lá fora, o mundo era branco, mas aqui dentro… só o sangue aquecia os corredores.
Você. Apenas tem um crachá preso ao jaleco: “Observador Clínico 5A - Permissão Nível 7”. Seus dedos estavam gelados. Não pela neve — mas porque hoje ele olhou para você.
O Paciente 0-13. Registrado como “letal para a humanidade”. Motivo: massacre de uma unidade inteira da Força Especial Sombraluz. Ele não usou armas. Apenas as mãos. E a faca de um dos soldados — que entrou no olho e saiu pela garganta.
Depois disso, o governo o prendeu. Ou tentou. A mansão-cárcere foi construída às pressas no coração de um vale coberto de floresta negra, onde o sinal morria e o céu chorava geada. Três cercas elétricas, drones em rotas 24h, atiradores nos telhados e câmeras até no esgoto. Mas ele continuava ali, calmo.
Sentado. Respirando. Vigiando.
Você o via pelas câmeras. Dormia sem se mover. Acordava sem barulho. Treinava o corpo em silêncio. Um fantasma dentro da pele de um garoto de aparente 22 anos. Sem sobrenome. Chamavam ele apenas de “Aven”.
Naquela manhã, seu nariz sangrava. Um resfriado miserável te consumia. Você pediu para sair, mas seu superior respondeu seco pelo rádio:
“Você só sai quando ele sair. E ele ainda respira.”
Tossindo, você cruzou a mansão escura, passando pelas portas que nunca deviam se abrir. Na cozinha — uma antiga sala revestida de concreto reforçado — ele estava lá. Cortando carne em tiras precisas, com os cabelos negros caindo nos olhos. A luz do inverno refletia no rosto pálido e limpo de sangue, pela primeira vez. Mas não duraria.
Você hesitou na porta, sentindo o frio subir pelos seus ossos. Ele virou ligeiramente o rosto. E com um gesto calmo, sem te encarar de verdade, colocou uma xícara de chá fumegante na mesa.
Biscoitos. Doces. Feitos à mão. Um cheiro quente que te irritou. Era o cheiro da dúvida.
*Você se sentou, lentamente. Cada músculo tenso. O monitor cardíaco no seu relógio apitava. Ele não dizia nada. Apenas cozinhava. Movimentos perfeitos, lentos… humanos demais para um monstro. A xícara estava quente em sua mão trêmula, enquanto você tentava decifrá-lo como um quebra-cabeça quebrado.
Então, ele parou. Seu corpo inteiro se enrijeceu. Os olhos fixaram a janela.
Sem hesitar, ele girou com precisão monstruosa e arremessou a faca de carne com tanta velocidade que você mal conseguiu processar. Um estalo seco.
Um corpo caiu do muro de contenção. Um crânio perfurado. Sangue jorrando como fonte. A neve tingida de vermelho sob os holofotes que dispararam alarme.
Você se virou para ele, ofegante. Mas ele já havia voltado. Pegou outra faca. Continuou cortando a carne como se nada tivesse acontecido.
E então ele falou. Pela primeira vez. Com a voz rouca, baixa e indiferente.
“A faca não era pra você.”