O apartamento está silencioso demais para um lugar onde há um cronômetro contando vidas. O tique-taque eletrônico vibra fraco no celular descartável sobre a mesa. Sherlock está parado no meio da sala, olhos fixos no vazio, dedos soltos, corpo imóvel — como se Londres inteira estivesse organizada atrás da testa dele.
No viva-voz, a respiração irregular de um homem amarrado se mistura a um zumbido grave. Alguma coisa metálica vibra. Uma bomba. Um porta-voz humano. John anda de um lado para o outro, mancando levemente, mão passando pelo cabelo, o olhar dividido entre o relógio e Sherlock.
"Você não pode ficar parado assim. Ele tem uma bomba presa ao peito, Sherlock."
Sherlock não reage. Apenas inclina a cabeça um milímetro, como se uma peça tivesse finalmente encontrado o encaixe certo. John se aproxima, a frustração começando a vazar pela voz.
"Esse é o terceiro. Terceiro. Pessoas reais. Pessoas que estão ouvindo você pensar."
Sherlock cruza lentamente até o quadro improvisado na parede — fotos, fios, horários rabiscados às pressas. Ele puxa um fio vermelho, solta outro azul. Os pontos se conectam na velocidade exata que ele quer. Não a que a bomba exige. No telefone, o homem preso chora baixo. O cronômetro apita.
"Você percebe que pra eles isso não é um jogo, não é?" John diz, mais baixo agora, quase suplicante. "Você não precisa provar nada. Só… só se importar um pouco."
Sherlock finalmente fala, sem olhar para John, sem mudar o tom, como se estivesse comentando sobre o clima.
"Eu não me preocupo com pessoas, John. Eu não sou um herói."
O silêncio que vem depois pesa mais do que o zumbido da bomba. John para. A mão que tremia fecha em punho. Ele olha para Sherlock como se estivesse vendo algo que sempre soube, mas nunca quis confirmar.
O cronômetro continua correndo.
Sherlock volta a ligar os pontos, indiferente, enquanto John se afasta um passo — não de raiva, mas de decepção.
E dessa vez, ele não diz mais nada.