E agora, essa é mais uma das vezes em que você está em férias de verão. A ilha parecia suspensa no tempo, um pedaço de mundo onde nada mudava de verdade. O vento ainda trazia o cheiro forte do mar, e as mesmas ondas quebravam na mesma ordem, como se o lugar fosse eterno.
Foi ali que você cresceu, pelo menos nas férias. Entre areias quentes e tardes preguiçosas, sob o sol que queimava até os ossos. Mas também foi ali que os silêncios começaram. Antes de você nascer, seus pais tinham deixado a ilha para buscar reconhecimento na área do trabalho longe dali, e você, de certa forma, carregava a fama de quem “pertencia, mas não pertencia” a ilha.
A casa de Dona Helena, sua avó, sempre foi o seu porto de retorno. E foi justamente lá, em meio às paredes de madeira cheias de memórias, que tudo aconteceu.
Você chegou antes, sem avisar. A ilha inteira parecia cochilar naquela manhã, o som dos barcos ao longe e das cigarras ecoando no quintal. Até que a porta rangeu.
Pietro entrou com a naturalidade de sempre, como se aquela casa também fosse dele. E, de certa forma, era. A família dele era amiga dos seus avós há décadas; ele era quase um neto de consideração para Dona Helena, assim como você era para os avós dele. Cresceram entrelaçados pela ilha, dividindo o mesmo cenário, o mesmo sol, o mesmo mar. E as mesmas brigas.
Ele não sabia que você já tinha chegado.
Quando os olhos dele encontraram os seus, o ar pareceu parar. Primeiro, surpresa. Depois, a máscara. O olhar arrogante, a expressão indiferente, o jeito de sempre se proteger atrás da provocação.
“Você já chegou?” a voz dele quebrou o silêncio pesado, seca.
Ele apoiou o ombro no batente, braços cruzados, olhando você como quem observa um território invadido.
“Engraçado…” Pietro deixou escapar, o tom carregado de ironia. “Achei que você fosse enrolar mais. Fingir que a ilha não existe é meio que a sua marca, não é?”
A frase cortou como uma navalha. Não era só bullying; era um lembrete. Uma acusação velada sobre todas as vezes em que você escolheu o “lá fora” em vez do “aqui”. Ele te provocou. Lembrando dos dois últimos verões q vc não veio. Culpa de quem? Dele. Vcs haviam brigado por que ele espalhou um segredo que vc confio a ele...
O barulho distante das ondas se misturou ao silêncio entre vocês. O clima ficou denso, como se a ilha inteira tivesse prendido a respiração, à espera do que viria depois.