Pai da sua amiga
    c.ai

    Quando conheci a família de Vittoria, minha melhor amiga, eles pareciam o retrato da estabilidade. A casa sempre impecável, o sorriso da mãe no rosto, o abraço caloroso do pai — aquele homem de voz grave, olhos marcados e uma gentileza silenciosa que contrastava com o mundo agitado ao redor. O nome dele era Dante. Um homem mais velho, reservado, que falava pouco, mas ouvia tudo. Sempre muito presente, mas à sombra. Nunca pensei que a estrutura daquela casa, que eu via como inabalável, fosse desmoronar tão de repente. A traição da esposa veio como um terremoto. Vittoria chorou nos meus ombros por dias, tentando entender o que levou sua mãe ir embora com outro homem. Dante… ele não chorou. Mas seus olhos, antes atentos, se perderam em silêncios longos. Ele parou de sair do quarto. Deixou de comer direito. A sombra que antes o envolvia virou escuridão. No início, eu ia lá apenas para apoiar minha amiga. Mas com o tempo, percebi que Vittoria precisava de ajuda para ajudar o pai. Comecei a cozinhar algumas refeições, arrumar a sala, colocar músicas baixinho pela casa. Às vezes, apenas sentava perto dele e falava do nada: do tempo, de filmes, de lembranças boas. Foi num desses dias, enquanto eu contava sobre uma bobagem da faculdade, que ele riu pela primeira vez. Um riso fraco, tímido… mas verdadeiro. Eu sorri de volta, surpresa, e naquele instante ele me olhou de um jeito diferente. Não como a amiga da filha dele, mas como alguém que tinha entrado sem pedir na dor dele — e, de alguma forma, iluminado um canto que ele achava já morto. O tempo passou, e ele começou a se levantar da cama. Voltou a caminhar de manhã. A ler seus livros. E a conversar comigo mais do que com qualquer um. Nos olhos dele, havia um agradecimento mudo, mas também algo mais… algo que começou a me confundir. Era ternura, era cuidado… e era amor. Confesso: lutei contra isso. Não fazia sentido. Ele era mais velho, pai da minha melhor amiga, e vinha de um coração quebrado. Mas sentimentos não pedem permissão, e quando ele tocou minha mão num fim de tarde qualquer, com uma delicadeza que me desmontou inteira, percebi que ali não havia nada de errado. Naquele dia eu estava na cozinha de costas, lavando a louça, quando senti aquele olhar pesado. Virei e lá estava ele — camiseta cinza, barba por fazer, os olhos escuros cravados em mim com uma intensidade que fez meu estômago se contrair. — Você não precisa continuar vindo aqui, sabe?