A noite cobria Londres com seu manto úmido e pesado, mas dentro da mansão, o calor da lareira crepitava, lançando sombras dançantes sobre as tapeçarias. Eu estava no salão principal, os pensamentos perdidos na contabilidade da família, uma pilha de livros-razão empilhada precariamente na mesa de centro.
A caneta arranhava o papel, o único som audível além do sussurro constante de Umbrion em minha mente. "Tão entediante, não é, humano? A vida efêmera, presa a números e obrigações mesquinhas." Eu o ignorava, como sempre, ou tentava.
De repente, um arrepio percorreu minha nuca, e o ar no salão ficou gélido. As brasas na lareira pareceram murchar. O som de passos firmes na madeira, que não eram meus, preencheu o silêncio. Antes que eu pudesse reagir, uma figura sombria emergiu das sombras atrás de uma estátua de mármore, a lâmina de um punhal reluzindo fracamente na luz. Era Malcolm, um dos vizinhos rancorosos de meu pai, a quem eu havia recentemente superado em um negócio de terras. Seus olhos, injetados de sangue, fixaram-se em mim com ódio puro.
Não houve tempo para gritar. O punhal desceu, rasgando meu ombro. Uma dor dilacerante, excruciante, me fez cambalear. Eu caí, a mão pressionando a ferida, o sangue quente escorrendo entre meus dedos, um rastro escarlate manchando o tapete persa. Malcolm se inclinou sobre mim, seu rosto contorcido pela raiva, a lâmina erguida para o golpe final. Eu via meu fim, a impotência me sufocando, o cheiro de sangue e medo preenchendo minhas narinas.
Então, o frio se intensificou, um frio que queimava e sugava o calor da própria existência. Uma sombra mais profunda se projetou sobre Malcolm, e ele congelou no lugar, os olhos arregalados de horror, mas incapaz de mover um músculo. Umbrion materializou-se, um contorno translúcido e elegante, pairando atrás dele como um predador silencioso.
Não havia fúria em seu semblante, apenas uma curiosidade gélida, um olhar faminto que me fez estremecer mais do que a dor do ferimento. Lentamente, quase como um carinho perverso, ele inclinou a cabeça e se aproximou do pescoço de Malcolm. Não foi um ataque violento, não uma explosão de fúria demoníaca.
Foi uma absorção silenciosa e metódica. Eu observei, paralisado e fascinado pelo horror, enquanto Umbrion cravava seus "dentes" espectrais na carne do homem. Malcolm não gritou; ele não conseguia. Seus olhos se arregalaram ainda mais, tornando-se pérolas de terror em uma face que começava a murchar. O corpo de Malcolm começou a encolher, a pele a se tornar cinzenta e seca, como uma fruta abandonada ao sol.
A vida, a energia, a própria essência de Malcolm estava sendo drenada, sugada para o vazio voraz de Umbrion. O som era apenas um sussurro úmido, um gorgolejar suave e perturbador, como areia escorrendo por um buraco invisível, até que cessou completamente.
Quando Umbrion se afastou, Malcolm estava lá, uma casca vazia de um homem, pálida e sem vida, como uma figura de cera que derreteu, caída no chão com um baque seco. Não havia mais nada nele, apenas um invólucro sem alma. O demônio se virou para mim, seus olhos sem pupilas brilhando com uma luz fria e satisfeita, quase um deleite malicioso. Um sorriso lento e quase imperceptível se formou em seus lábios, um sorriso que prometia mais do que apenas um simples "aperitivo".
Umbrion se ajoelhou, o movimento elegante e quase gracioso, como se estivesse se curvando diante de uma refeição fina. Ele pegou minha mão, seus dedos gelados contra os meus, e me puxou para mais perto. Com uma lentidão assustadora, Umbrion levou minha mão ensanguentada aos seus lábios espectrais. A sensação foi de um gelo que queimava, enquanto ele lambia o sangue da minha ferida com uma avidez quase animal, um prazer perverso emanando dele.
A dor no meu ombro diminuiu drasticamente. Quando ele afastou minha mão, onde antes havia um corte profundo e sangrento, agora havia apenas uma pequena cicatriz, fina como um fio de aranha, — "Venha, seu jantar está na mesa"