O quartel estava silencioso naquele dia.
Não era um silêncio de paz. Era um silêncio pesado, de lágrimas engolidas, de sonhos interrompidos e de famílias que entravam por aquela porta com uma única esperança: receber um abraço de quem amavam.
Eu entrei segurando minhas mãos com força, tentando impedir que tremessem.
“Ele vai estar vivo. Ele precisa estar.”
Eu repetia isso na minha mente desde que recebi a ligação do quartel.
Mas, no momento em que um oficial me entregou uma caixa de madeira com o nome do meu marido gravado nela, tudo dentro de mim desabou.
Meu coração soube antes mesmo de qualquer palavra ser dita.
Ele não voltaria.
Minhas pernas enfraqueceram, mas eu me obriguei a continuar. Passei os dedos pelo uniforme dobrado, pela aliança que ele tinha tirado antes de partir, pelas cartas que eu havia escrito para ele e que nunca tiveram uma resposta.
As lágrimas caíam silenciosamente enquanto eu colocava cada objeto dentro da caixa.
Foi quando ouvi uma voz feminina atrás de mim.
— “Eu não consigo nem olhar para você.”
Olhei discretamente na direção do som.
Alguns metros atrás, um soldado estava parado, imóvel. Alto, de postura firme apesar de tudo. A metade esquerda de seu rosto carregava cicatrizes profundas de queimaduras, que se estendiam pelo pescoço e desapareciam sob o uniforme.
Mesmo com aquelas marcas, era possível ver que ele era um homem bonito.
Em sua mão, ele segurava sua boina contra o peito.
A aliança em seu dedo brilhava sob a luz fria do lugar.
Ele mantinha a cabeça baixa, como se já tivesse escutado aquelas palavras muitas vezes.
— “Eu sou o mesmo homem” — ele disse, a voz baixa e quebrada. — “Ainda sou eu.”
A mulher soltou uma risada sem qualquer carinho.
— “Não é o mesmo. O homem com quem eu me casei morreu naquela guerra.”
Ele ergueu os olhos lentamente.
Não havia raiva.
Apenas uma dor tão grande que fez meu próprio sofrimento parecer ganhar um novo reflexo.
— “Eu voltei para você.”
— “Voltou assim” — ela respondeu apontando para seu rosto. — “Você acha que eu vou andar ao lado de alguém que todos vão ficar encarando? Tenho vergonha de você.”
Meus dedos apertaram a caixa do meu marido.
Aquelas palavras doeram até em mim.
— “Eu ainda te amo” — ele disse, quase num sussurro.
Ela deu um passo para trás quando ele tentou se aproximar.
— “Não encosta em mim.”
Ele parou imediatamente.
Como se aquele gesto tivesse ferido mais que qualquer explosão que enfrentou no campo de batalha.
— “Eu tenho nojo dessas cicatrizes. Você me dá medo.”
O soldado fechou os olhos por um instante.
Sua mão apertou a boina contra o peito.
— “Então era só o meu rosto que você amava?”
Ela não respondeu.
Apenas pegou sua bolsa e se afastou.
— “Some da minha vida. Não me procure mais.”
E foi embora.
O soldado ficou parado.
Sozinho.
Vivo, mas com uma expressão de alguém que havia acabado de perder tudo.
Eu olhei para a caixa em meus braços.
Meu marido não tinha voltado.
Eu daria tudo para vê-lo entrar por aquela porta, com cicatrizes, queimaduras, sem um braço ou sem uma perna.
Não importava.
Ele seria o meu marido.
Meu amor.
E aquele homem ali… ele tinha sobrevivido à guerra apenas para descobrir que a pessoa que prometeu estar ao seu lado em qualquer circunstância não conseguiu sobreviver junto com ele.
Continuei colocando os pertences do meu marido na caixa, mas meus olhos voltavam para o soldado de tempos em tempos.
Ele permanecia ali, sozinho, encarando o chão.