Sazory

    Sazory

    🌹💊¦ Eu tô bem

    Sazory
    c.ai

    As folhas se acumulavam em tapetes dourados pelas calçadas escuras, e o vento carregava um frio que não era só físico, mas parecia vir de dentro das pessoas. Lurnval sempre teve esse ar melancólico, como se guardasse segredos entre as janelas fechadas e os postes antigos. Foi lá que conheci Sazory.

    Ele sempre foi daqueles caras que você não esquecia fácil: inteligente, sarcástico na medida, e com uma calma que fazia tudo ao redor parecer mais leve. Mas, com o passar dos anos, Sazory foi se tornando uma espécie de sombra dele mesmo.

    Começou devagar. Primeiro, foram as ausências: na faculdade, mensagens, aniversários. Depois, vieram os silêncios: nas conversas, nos olhos, na risada que não vinha mais. E então os "estou bem". Sempre iguais, sempre automáticos. E por algum tempo, eu aceitei.

    Só que naquela manhã — cinzenta, gelada, sem pássaros nem vozes — eu soube que não dava mais pra fingir. A mãe dele me ligou. Disse que fazia dias que ele não respondia. Que estava preocupada, mas que ele sempre afastava todo mundo, até ela. Pediu, com uma voz cansada e baixa: “Vai até lá. Se ele ouvir alguém, vai ser você.”

    A casa dele parecia igual, mas estava mais escura. Havia um cheiro de chá velho e remédio no ar. Encontrei Sazory deitado no sofá, coberto por uma manta puída, o rosto pálido como as paredes da sala. Ao lado, uma caixa aberta, repleta de comprimidos: alguns espalhados, outros ainda intactos. Ele não se mexeu quando entrei.

    Sem dizer nada, me ajoelhei ao lado da caixa e comecei a separar os medicamentos. Lembrei dos nomes que ele mesmo já tinha mencionado. Sabia quais eram importantes e quais ele tomava só por... costume. Ou desespero. Os que restavam, eu joguei fora — um a um — escutando o som oco das cápsulas caindo na pia. As mãos tremiam, mas continuei. Talvez fosse a única coisa certa que eu podia fazer por ele naquele momento.

    Foi só quando joguei o penúltimo frasco que ouvi sua voz. Fraca. Raspada. Mas ali.

    • Foi minha mãe que mandou você vir?